sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Valérian #06



Estação de Brooklyn - Terminal do Cosmos: a conclusão da aventura iniciada em Metro de Chatelet - Direção Cassiopeia. Os misteriosos eventos na Terra estão afinal interligados com as ações de dois ladrões menores no futuro, que Laureline rapidamente elimina. A manifestação dos artefatos na Terra parece prender-se com uma conspiração maior, proveniente da misteriosa civilização de Hypsis, que utiliza a cupidez das maiores empresas do passado terrestre para levar a cabo os seus desígnios.

Os Espectros de Inverloch: Laureline está a sentir-se sub-utilizada num castelo escocês, Valérian está um planeta distante a tentar caçar uma criatura muito esquiva. Nenhum percebe o porquê das missões de que foram incumbidos por uma Galaxity que deixou de responder. Entretanto, na Terra dos anos 70, o caos parece estar a instalar-se nas cúpulas militares globais, com o enlouquecer dos militares sob influência de objetos aparentemente inócuos. Até os venais Shingouz fazem uma aparição, também numa missão misteriosa ao serviço de Galaxity. Tudo se dirige a um ponto fulcral, um serão no castelo de Inverloch, que reunirá Laureline, Valérian e a criatura que caçou, os Shingouz, a dona do castelo e o seu esposo, alto responsável dos serviços secretos britânicos, onde nos será revelado o próximo passo dos mistérios desta aventura: uma conspiração por parte da civilização de Hypsis para eliminar a humanidade do futuro. A história irá continuar no próximo volume da série.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Arte y Robótica: La Tecnología como Experimentacíon Estética


Ricardo García (2016). Arte y Robótica: La Tecnología como Experimentacíon Estética. Madrid: Casimiro.

Este ensaio sobre o impacto da tecnologia nas artes inicia-se com um excelente capítulo sobre a história da robótica, desde os autómatos grego-romanos e medievais até aos dias de hoje, olhando também com algum carinho para as visões filosóficas e da ficção científica. Só este capítulo faz valer o livro. O restante é um interessante retrato da evolução de formas de expressão artística que utilizam tecnologias enquanto meio, quer robótica, desenho automatizado, implantes cibernéticos, new media ou cruzamentos entre o mundo virtual e o real.

Emerge daqui uma visão interessante, exposta pelo ensaísta através da expressão da necessidade de recuperar o vanguardismo artístico através do entrosamento com a pesquisa científica e tecnológica, buscando os seus significados através do questionar artístico. Uma visão difícil de atingir, sendo mais habitual o uso de meios tecnológicos e digitais como ferramenta de expressão. O que o autor condena liminarmente é o uso destas ferramentas como mero gadget, como forma de encher o olho, com estéticas vazias de sentido que não questionam o impacto que a ciência e tecnologia têm como narrativas dominantes e estruturantes quer do mundo actual, quer do futuro previsível.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Valérian #05

 

Os Heróis do Equinócio: um leitor mais incauto pode ler esta aventura dos agentes espácio-temporais e pensar que está perante uma história épica com um toque de humor. Nesta aventura, Valérian é incumbido da missão de participar num torneio num planeta distante. Tudo indica que o torneio será de combate, mas ao chegar ao planeta os nativos explicam aos participantes que o que necessitam é que os heróis se dirijam a uma ilha distante e enfrentem as provas que lhes serão destinadas. O vencedor dará origem à próxima geração de habitantes do planeta, fecundando a madre suprema do planeta. Temos um herói de espada flamejante, um tecnólogo algo comunista defensor da democracia popular, um sábio interligado com a natureza... e Valérian, que mal sabe onde está, quando mais o que tem de fazer. Apesar de falhar redondamente em todas as provas, acabará por ser o escolhido para uma tarefa que tem preocupantes efeitos secundários e ajudará a gerar a nova geração de habitantes do planeta. Será eventualmente salvo por uma furiosa Laureline, nada contente com a forma como o seu Valérian desempenhou esta missão. A ironia desta história é muito óbvia, com a caricatura à banda desenhada épica, quer de fantástico quer de ficção científica. Druillet e Moebius são os principais visados nesta sátira visual, os seus estilos estão na base do espantoso trabalho de Meziéres neste álbum.

Metro de Châtelet - Direcção Cassiopeia: Valérian investiga, na França dos anos 60, estranhas ocorrências com monstros misteriosos. Em simultâneo, no futuro, Laureline explora os planetas de Cassiopeia, tentando desvendar um mistério que está relacionado com os acontecimentos da missão de Valérian. A resposta poderá estar em artefactos desaparecidos de um dos belos templos de um planeta que alberga o lixo do sistema. História a ser concluída no álbum seguinte, que se destaca pelo ambiente depressivo e a ligação intensa entre os personagens, mesmo separados pelo espaço e tempo.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

aCalopsia: Nocturno


Com este livro, a editora Kingpin Books reforça a sua aposta na obra do mexicano Tony Sandoval. Noturno foi um personagem criado pelo autor na sua adolescência, revisto agora com uma nova maturidade gráfica e narrativa. O cerne juvenilia do justiceiro mascarado que canta e encanta numa banda de música pesada é revisto à luz das paixões e obsessões de um artista de estilo peculiar. Crítica completa no aCalopsia: Nocturno.

domingo, 17 de setembro de 2017

aCalopsia: 30 Dias, 30 Artistas


O aCalopsia está a publicar uma série de artigos sobre os talentos da banda desenhada portuguesa. Com curadoria de Sérgio Santos, editor da revista H-alt, divulga o que de melhor se faz hoje, por cá, na ilustração de bd em Portugal. Visitem e descubram os desenhos espetaculares da série 30 Dias 30 Artistas. Para ilustrar este post, escolhi uma variação de Penim Loureiro sobre os personagens clássicos da Archie Comics.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Valérian #04


Pierre Christin, Jean-Claude Meziéres (2017). Valérian Volume 4. Lisboa: Asa.

O Embaixador das Sombras: a recente adaptação cinematográfica de Luc Besson inspira-se nesta aventura dos agentes espácio-temporais. Se bem que o realizador alterou profundamente a história, modificando-a enormemente, nalguns pormenores de forma crucial, como no forte intervencionismo de Laureline. É esta que faz avançar esta história, onde os agentes escoltam o embaixador humano à gigantesca estação espacial conhecida como Ponto Central - uma construção totalmente alienígena e não centrada na Terra, como faz crer o filme. Assumindo o seu posto como representante da Terra no conselho dos povos que governam a imensa estação, o embaixador tem uma missão secreta: consolidar o domínio imperial terrestre, aproveitando o lugar no conselho. Atrás de si está uma enorme força militar terrestre. No entanto, a misteriosa espécie que construiu os núcleos originais da estação (que, no filme, são os indígenas quase exterminados por uma batalha espacial que inadvertidamente destruiu o seu planeta) não permite essa impertinência terrestre. O grande foco desta aventura é o périplo de Laureline pelos vários espaços da estação, habitados pelos mais estranhos seres alienígenas. Originalmente publicado em 1975.

Em Terras Fictícias: múltiplas versões clonadas de Valérian são sacrificadas numa estranha missão que decorre em diversos simulacros da história humana. A missão decorre a mando de uma historiadora de Galaxity, que persegue de cenário em cenário uma inteligência alienígena que procura reconstruir cenários históricos como experiência estética. Uma historiadora com um desdém especial por Valérian, um herói muito emasculado nesta aventura. Originalmente publicado em 1976.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Valérian #03



Pierre Christin, Jean-Claude Meziéres (2017). Valérian Volume 3. Lisboa: Asa.

Bem-Vindos a Aflolol: o planeta que é o cerne industrial do império terrestre recebe a visita de estranhos viajantes, na verdade os habitantes originais de um planeta que se acreditava não albergar vida inteligente. Seres de vida muito longa, sulcam as vias espaciais e regressam pontualmente à sua terra natal naquilo que para si são breves viagens, mas milénios em tempo humano. Têm o direito de habitar o planeta que é seu, mas o conflito com as necessidades industriais é óbvio. Simplesmente, não se pode abandonar um território tão útil para o império, apesar de quaisquer direitos que os indígenas reclamam. A administração terrestre tenta isolá-los em reservas, e colocá-los a trabalhar nas indústrias planetárias, mas tudo o que conseguem é uma sucessão de hilariantes acidentes. O problema resolve-se quando os nativos decidem regressar ao seu nomadismo espacial, deixando o planeta livre para os colonos terrestres. É Valérian que tem a triste tarefa de administrar os direitos dos nativos do planeta. Uma metáfora leve, mas contundente, sobre as heranças do colonialismo. Originalmente publicado em 1971.

Os Pássaros do Mestre: com a nave despenhada num planeta que é uma armadilha nas vias espaciais, Valérian e Laureline são apanhados por uma estranha civilização que se dedica unicamente a alimentar um misterioso mestre. Todos são náufragos espaciais, escravizados pelo medo dos temíveis pássaros que provocam a loucura, dominados por um mestre que nunca viram.  revolta de alguns dos náufragos, com ajuda dos agentes espácio-temporais, irá revelar que o tal mestre é uma criatura amorfa, capaz de usar influências hipnóticas para despertar os piores medos no interior de cada indivíduo, e assim controlá-los. Originalmente publicado em 1973.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Valérian #02


Pierre Christin, Jean-Claude Meziéres (2017). Valérian Volume 2. Lisboa: Asa.

Na eterna questão de apontar a influência desta série em Star Wars de George Lucas (algo que o realizador, tanto quanto sei, nunca negou nem confirmou), estes dois álbuns têm elementos iconográficos que podem ter inspirado claramente a série cinematográfica. Em O Império dos Mil Planetas, temos entidades poderosas mascaradas debaixo de pesados capacetes, Valérian é mergulhado num material para ser interrogado (demasiado similar ao congelamento criogénico de Han Solo numa placa para ser coincidência), há navios com velas solares e fortalezas no deserto similares ao que no episódio IV da série é a fortaleza de Jabba the Hut. Já O País sem Estrela dá-nos a imagem de uma Laureline vestida com um bikini dourado decorado com padrões barrocos, muito próximo daquele vestido pela princesa Leia, imortalizado em The Empire Strikes Back. Note-se que numa equipa de produção cinematográfica, as influências visuais de Valérian talvez tenham sido canalizadas por Ralph McQuarrie para o trabalho de Lucas. Este é um dos mistérios da cultura pop, mas com indícios visuais tão óbvios que é impossível não perceber a sua relação intrínseca.

O Império dos Mil Planetas: é com este volume que a série se afirma como uma obra marcante no domínio da FC. Esta é uma história de Space Opera pura, com os agentes Valérian e Laureline a ir investigar o sistema planetário de Syrte, que assumem desconhecer o império terrestre, deparando-se com uma exótica civilização alienígena. Syrte gira à volta de um imenso mercado, ponto de encontro das espécies do sistema, mas a sua civilização parece decadente, sob domínio da casta dos Conhecedores, que usam o seu saber médico e psicológico para dominar os syrtianos e têm um ódio especial à Terra. Envolvidos nas lutas pela libertação planetária, organizadas por mercadores descontentes com o retrocesso trazido pelos Conhecedores, acabam por descobrir que estes são os sobreviventes de uma nave terrestre perdida no espaço, quase imortais pelo efeito de uma substância encontrada no planeta onde a sua nave se despenhou. Pura aventura em modo space opera exótica, originalmente publicada em 1969.

O País sem Estrela: de visita ao sistema de Ukbar (ah, as referências borgesianas), Valérian e Laureline descobrem uma ameaça estelar: um asteróide enorme, em rota de colisão com estes planetas, onde vivem colonos terrestres. Uma ida ao corpo celestial revela um novo mistério. O planetóide é oco, com um sol interior, e dentro dele existe vida e uma estranha civilização, que vive numa eterna guerra civil. Um dos países, dominado pelas mulheres, luta constantemente contra o outro, dominado pelos homens. Vivem esta luta milenar sem qualquer consciência que existe um universo exterior, e as explosões contínuas da batalha são o que desvia o planeta errante da sua órbita e o colocam em rota de colisão com o sistema de Ukbar. Para travar a ameaça, sem o genocídio dos habitantes do interior do planetóide Zahir (claro, e só falta aqui um aleph), Valérian e Laureline vão ter de encontrar uma forma de terminar o longo conflito que opõe a matriarquia à patriarquia, algo que se consegue com alguma sedução, soporíferos pesados e uma viagem dos líderes ao espaço exterior, para descobrir que o universo não termina nas fronteiras do interior do seu planeta. Novamente, space opera de aventura em cenários exóticos. Obra originalmente publicada em 1970.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

MOTELx 2017


O festival MOTELx tornou-se um ritual de fim de verão, no meu caso de arranque de ano letivo. Nada como preparar o espírito para o frio cinzendo das invernias que se avizinham com doses concentradas de cinema de terror. E nada como monstros, assombrações e baldes de tripas e sangue para me preparar para os horrores arcanos da convivência diária com professores e alunos no sistema educativo. O festival continua abrangente e eclético, talvez um bocadinho demasiado nos holofotes da moda comercial, algo inevitável e necessário à sua sobrevivência. Temos no programa um pouco de tudo, desde obscuros filmes portugueses (este ano não vi nenhum, infelizmente) aos filmes com pretensão a blockbuster (e promoção intensiva a condizer). Continua com os seus programas paralelos, com atividades para lá da cinefilia, ciclo na relutante Cinemateca, animação no espaço do cinema S. Jorge. E os gelados, claro, este ano sem os adereços de terror da IScream, mas com a deliciosa mestria dos gelados artesanais, feitos com as metodologias italianas, da Giallo. Confesso que terminei os dias do MOTELx um pouco mais anafado. E não sou caso único.



À Meia Noite Levarei A Sua Alma (José Mojica Marins, 1967)

Ainda em modo warmup, o primeiro filme da leva MOTELx deste ano. Como parte da programação, a Cinemateca organizou um mini-ciclo de cinema de terror sul-americano. Com alguma relutância, suspeito, depois de ouvir o comentário pouco convincente do responsável da Cinemateca no início da sessão. Foi uma boa oportunidade para rever este clássico do cinema de terror, o primeiro do lendário ciclo Zé do Caixão de José Mojica Marins, cineasta que, de acordo com António Monteiro, organizador do festival, se confunde com as suas personagens. Aqui encarna-a com veia, mostrando o porquê de ser um seu alter ego. É um filme deliciosamente incongruente, que transporta a iconografia do horror gótico para um cenário de tropicalismo empobrecido. Memorável pelo carácter obsessivo, cenas over the top conseguidas com efeitos mínimos e rústicos.



Super Dark Times (Kevin Phillips, 2017)

O filme de abertura do Motelx deste ano posicionou-se como um clássico instantâneo, uma espécie de novo Donnie Darko. Leva-nos à clássica small town americana no início dos anos noventa, focado num grupo de adolescentes que, após a morte acidental de um dos seus elementos mergulha numa espiral de paranóia, com um dos personagens a tornar-se serial killer. O filme é suportado pelo excelente trabalho dos actores, que conseguem criar uma enorme empatia com o espectador, e a sua estética cinzentista e revivalista. De resto, falha, arrastando-se numa história facilmente compreensível e menos misteriosa do que o anunciado. A única comparação possível com Donnie Darko é a forma eficaz como toca na nostalgia de época, com um tremendo revivalismo dos primórdios da década de 90 do século XX.


The Masque Of The Red Death (Roger Corman, 1964)

Entre a cinematografia lendária de dois gigantes do cinema, Roger Corman e Vincent Price, a série de filmes góticos adaptando contos de Edgar Allan Poe destaca-se. Neste, os talentos combinados destes monstros do cinema aliam-se ao olhar estético de Nicholas Roeg para uma adaptação barroca de um dos contos seminais de Poe. Price delicia-se claramente  no encarnar de um personagem fútil e implacável, que se compraz na corrupção moral dos que o acompanham, não descansando enquanto não recorre a todos os meios para destruir a inocência. Todo o filme é uma elegia à futilidade, mostrando que o dinheiro e o esplendor podem criar a ilusão de uma superioridade humana, facilmente aniquilada por imperativos biológicos. Nenhum luxo, ciência ou pacto demoníaco resiste ao poder da pestilência. O filme brilha num fortíssimo esplendor cromático, com um trabalho implacável de enquadramentos que tira partido do formato cinemascope para tornar quase paisagísticas as cenas de um filme de close ups e ambientes fechados. A sessão contou com a presença de Roger Corman, com visionamento prejudicado pelas condições da sala, pouco arejada e com um som demasiado estridente. Uma constante nas sessões do festival que decorreram no Tivoli.




78/52 (Alexandre Philippe, 2017)

Um documentário dedicado à sequência mais memorável do cinema de terror: a icónica cena do chuveiro no filme Psycho. O trabalho inquietante de Hitchcock é dissecado ao pormenor clínico, onde os aspecto técnicos são abordados mas o que realmente conta é a análise das influências e impactos desta cena de um filme. Neste aspecto, alguns depoimentos parecem sofrer da análise excessiva, procurando ver na cena e no filme muito mais do que o que realmente lá está. Para além do brilhantismo técnico de Hitchcock, ficou a sobressair o seu sentido muito negro de humor.




Santa Sangre(Alejandro Jodorowsky, 1989)

De Jodorowsky não esperamos banalidades. Santa Sangre é, nas suas palavras, uma tentativa de compreensão do que se passa no interior da mente de um assassino, bem como da impossibilidade de inexistência de redenção. A mente fragilizada de Fénix, traumatizado pela morte violenta dos pais e perda do seu amor precoce, transforma-o num assassino em série que, projectando a imagem mental da sua mãe desmembrada no seu inconsciente, o leva a matar qualquer mulher que lhe desperte o desejo sexual. Todo o filme é um exercício de psicadelismo, misturando o saber iniciático com uma visão arrepiante das tradições mexicanas sobre a vida e a morte. Santa Sangre é um crescendo contínuo de delírio, um filme que sempre que pensamos não poder ir mais longe, nos choca e surpreende.


Cult of Chucky (Don Mancini, 2017)

 Não vale a pena esperar muito da mais recente iteração sequencial das aventuras deste personagem diabólico. Agrada aos fãs de Chucky, como se notou pelo contentamento visível na sala e debandada quase generalizada após o final numa sessão dupla. Tem algumas mortes divertidas e apropriadamente sangrentas, muitas tiradas de humor negro dos bonecos assassinos, e uma história previsível com um twist final não muito inesperado. Um filme de terror pipoca, que dá continuidade a uma saga cinematográfica já de si pouco interessante.


Meatball Machine Kodoku (Yoshihiro Nishimura, 2017)

Não é o melhor filme que vi nesta edição do Motelx (essa distinção fica para Masque of the Red Death, Santa Sangre e o surpreendente Housewife), mas é sem dúvida o mais memorável. É difícil transmitir o quão awesomely louco é este delírio visual. A sinopse, sobre um homem não muito bem sucedido que aos cinquenta anos encontra o amor e se vê mergulhado numa luta contra cyborgs mutantes, não lhe faz justiça. Todo o filme é um delírio entre o body horror, gore e cyberpunk, com deformações insanas do corpo humano e algo que só pode ser descrito como torrentes imparáveis de sangue. Deliciosamente absurdo e divertido, em registo de exercício de estilo alucinante. Um tipo de filme só possível vindo da estranha cultura japonesa.


Animals (Greg Zglinski, 2017)

Filme na competição para o prémio Motelx, esta co-produção suíça, polaca e austríaca mergulha-nos na vida de um casal em desagregação. Ela é uma escritora a tentar criar o seu primeiro livro para um público adulto, ele é um chef cozinheiro que trai a mulher em todas as ocasiões, apesar de não ter deixado de a amar. Numa viagem de férias para uma casa isolada onde a escritora poderá escrever o seu livro, um acidente automóvel deixa-a inconsciente. O filme é notável pelo conceito, nunca nos deixando perceber qual é a sua realidade. Os acontecimentos narrados de forma não linear deixam-nos sempre na dúvida. Estaremos a ver alucinações, assombrações, delírios ou os sonhos sincopados do estado de coma. O seu visual também nos cativa. No entanto, o ritmo demasiado lento, cheio de tempos mortos, torna este filme muito soporífero.


Housewife (Can Evremol, 2017)

Começa como slasher, segue em ritmo de thriller psicológico, e termina em horror apocalíptico lovecraftiano. Este filme foi uma excelente surpresa, embora não esteja isento de problemas. Uma dona de casa, casada com um investigador do paranormal, tem no seu passado um fortíssimo trauma, causado pela morte violenta da irmã e dos pais num acesso de loucura da mãe. Um trauma que condiciona a sua maneira de viver, que será abalada pelo regresso de uma amiga há muito desaparecida, que a iniciará no culto de um guru espiritual. Este revela-se mais do que um mero charlatão, utilizando-a para trazer ao mundo um bebé ímpio, prenúncio de uma nova geração de seres malditos. É impossível não sorrir com o final do filme, profundamente lovecraftiano, com os requisitos monstros tentaculares, após momentos de parto anti-natural fortemente reminiscentes de The Brood, filme de David Cronenberg. Apesar de apostar no gore e terror psicológico, tem alguns momentos menos ritmados e um estranho defeito. Trata-se de um filme turco, com atores turcos, que pretende demasiado ser americano, mas aqueles sotaques não disfarçam.


Spot Motelx 2017 (Jerónimo Rocha, 2017)

A passar mais despercebido, embora tenha iniciado todas as sessões do festival. Foi a experiência visual mais incómoda, talvez verdadeiramente arrepiante, que retirei deste festival de cinema de terror. Os spots do Motelx são curtas metragens de direito próprio, e normalmente surpreendem pela qualidade. Têm estéticas cuidadas, focadas nas iconografias do género, e socorrem-se de adereços e efeitos visuais que pensamos serem inauditos no panorama nacional. Mas são, no fundo, experiências visuais confortáveis, por muito sangrentas ou viscerais que sejam as imagens. A barreira do ficcional nunca foi transposta. Exceto no spot deste ano. Ao invés de seguir a estética esperada do horror, com tripas e criaturas, optou pelo registo found footage e meteu-se com uma tradição totalmente nacional, a dos Diabos de Vinhais. Aqui revistos como um grupo violento que tortura e mata um casal nas matas. É forte, violento, arrepiante. E incómodo, quer na estética quer no tema, por mexer com o nosso imaginário e ser explícito na violência. Este ano não foram zombies, dons Sebastião vindos das brumas, ou naves aterrorizadas por criaturas. Foram os demónios do imaginário tradicional português, encarnados no que poderia perfeitamente ser um grupo de psicopatas matarruanos a assolar as matas do isolado interior profundo português.

Valérian #01


Pierre Christin, Jean-Claude Meziéres (2017). Valérian Volume 1. Lisboa: Asa.

Sonhos Maus: um início inconspícuo para aquela que se viria a tornar uma das mais importantes séries de banda desenhada francófona. Num futuro distante, a Terra vive uma era de prosperidade tão grande em que só os tecnocratas e os agentes do serviço espácio-temporal trabalham. Os restantes cidadãos, reunidos na cidade utópica de Galaxity consomem os seus dias em elaborados sonhos. Xombul, o tecnocrata responsável pela gestão dos sonhos, e um homem fascinado pelo passado, vai até à idade média para roubar os segredos de magia de um alquimista, aprendendo a transformar homens em criaturas monstruosas. O seu objetivo é regressar a Galaxity e tomar o poder, moldando a sociedade à sua vontade. Para o travar, só as capacidades do aventuroso agente Valérian, que persegue Xombul entre a idade média e o futuro. Pelo caminho, cruzar-se-á com uma jovem rapariga da idade média, que o salva de alguns apuros e acaba por descobrir o segredo do agente. Este decide trazê-la consigo para o futuro. É assim que Laureline passa de camponesa medieva aventureira a intrépida agente do futuro. Uma história que se lê mais em jeito de comédia, quase pueril no seu desenrolar. Publicação original: 1967.

A Cidade das Águas Movediças: Após a derrota de Xombul no primeiro livro da série, este ser nefasto não desiste de tentar dominar o mundo. O seu novo plano leva-o à era catastrófica do final do século XX, tempo onde por pouco a humanidade não se extinguiu e do qual existem poucos registos no futuro. Valérian segue-o, descobrindo-se numa cidade de Nova Iorque semi-submersa, lidando com bandos dedicados à pilhagem e sendo salvo de apuros pela desembaraçada Laureline. Juntos, descobrem o esconderijo de Xombul, que se dedica a roubar os segredos científicos de uma sociedade em desagregação. O seu objetivo é construir uma máquina do tempo, capaz de o levar a qualquer época para alterar a história. No entanto, um engenho destes construído com tecnologia do século XX não funciona da maneira correta, e Xombul é definitivamente eliminado. Nesta aventura, é notável a iconografia ballardiana da cidade de Nova Iorque, entre as águas que a inundam e a vegetação que recobre os seus edifícios abandonados. Faz recordar o romance The Drowned World de J. G. Ballard. Uma ligação possível, uma vez que este romance foi editado em 1962, muito antes deste segundo livro da série Valérian. Publicação original: 1968.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Comics


Dastardly and Muttley #01: Quando a DC pegou nos personagens clássicos dos estúdios Hanna Barbera, que animaram a infância de muitos que, como eu, agora se vêem com quatro décadas, não seguiu o caminho esperado. Em vez de os recriar nos moldes tradicionais, deu-lhes uma vertente radicalizada. Uma aproximação que poderia não ter funcionado, mas funcionou. As velhas Wacky Races foram reinventadas como distopia pós-apocalíptica, e agora isto. Entregar estes personagens a um Garth Ennis com rédea solta é sinal que a DC Comics não está nada interessada em cativar públicos infantis com estes clássicos do desenho animado para crianças.


Batman #30: Se ainda restavam dúvidas que Tom King está obcecado pelo personagem Kite Man, este número dissipa-as. O personagem é uma óbvia piada, que nas mãos deste argumentista está a tornar-se uma piada cada vez mais negra.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

3D Printing: Rise of the Third Industrial Revolution



Aaron Council, Michael Petch (2014). 3D Printing: Rise of the Third Industrial Revolution. Gyge3D.

Nada distingue este livro de tantos outros sobre esta tecnologia, excepto, talvez, alguma sobriedade. Não é uma obra exageradamente optimista, e faz o que se propõe, mostrar exemplos de aplicações e potencial da impressão 3D em diferentes áreas. Interessante como introdução, mas dá-nos pouco mais do que algumas pesquisas na web em sites especializados.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

High Roads



Scott Lobdell, Leinil Yu (2003). High Roads. Nova Iorque: Wildstorm.

Este não é um comic a ler se quiserem uma visão séria e dramática sobre a II guerra. Se ainda suspeitarem que há algo de sério nele, imaginam o que poderá dar a mistura de uma ex-amante de Hitler, um inocente mas espadaúdo jovem soldado americano, um actor minorca que passou de uma carreira de herói do velho oeste a um mini-hitler do teatro burlesco, e um kamikaze japonês que não percebia muito bem o porquê de ter de se suicidar em combate e preferiu desertar para França. Se tiverem mente perversa, não, este não é um comic desses, apesar da presença profusa de heroínas e vilãs com decotes generosos. Se conhecerem a história da segunda guerra, estão a perguntar-se "como diabos é que os autores justificam a presença de um kamikaze em França", e a resposta é não, rigor histórico e verosimilhança são conceitos inexistentes nesta história.

O resto é um resvalar constante de aventura cheia de adrenalina em ritmo alucinante. O enredo gira à volta de uma jóia rara, cuja existência é conhecida pela ex-amante do ditador, mas acaba com a destruição das bombas atómicas da vitória final germânica na cidade nazi flutuante no ártico.

Pois, este é um livro desses. Daqueles que não teme os exageros, leva-os mais longe do que o saudavelmente recomendável, e que tem ninjas nazis para compor o ramalhete. Sublinhe-se que o mundo dos comics precisa de mais ninjas nazis.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Strange Dogs


James S.A. Corey (2017): Strange Dogs: An Expanse Novella. Nova Iorque: Orbit.

A dupla de autores responsável pela viciante série Expanse tem uma estratégia muito clara com estas pequenas novelas. Mantém o interesse dos fãs da série desperto entre cada novo romance, e permite-lhes explorar detalhes narrativos ou o passado de personagens, algo que não cabe dentro da estrutura bem desenhada dos romances. Este leva-nos um pouco mais longe, e parece servir como prenúncio do que virá nos próximos livros. Strange Dogs mergulha-nos em Laconia, um dos planetas alienígenas habitáveis em processo de colonização e aquele que, pelo que percebemos em Babylon's Ashes, cujos colonos militarizados terão algo a dizer na turbulência que afecta o sistema solar após os ataques devastadores da facção de belters que quase aniquilou a Terra.

Neste pequeno conto, seguimos a interação de uma jovem, filha de cientistas transformados em colonos após os eventos cataclísmicos de Nemesis Game, com as formas de vida alienígena do planeta. Uma em especial parece ter a capacidade de devolver criaturas mortas à vida, mesmo as que lhe são profundamente estranhas, como os humanos. Com isto, os autores aproveitam para aprofundar a história dos militares colonizadores do sistema Laconia, os sentimentos dos filhos dos colonos para quem a herança terrestre é distante e incompreensível, e a interação entre formas de vida potencialmente incompatíveis entre si. Uma leitura curta, a recordar o apetite leitor para Persepolis Rising, com edição prevista para dezembro de 2017.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Comics


Darkseid Special #01: Continuando a celebrar o legado de Jack Kirby, no mês em que se comemora o seu aniversário, a DC lançou mais dois especiais onde argumentistas e ilustradores contemporâneos tentam replicar o estilo do velho mestre. Esta semana, Mr. Miracle, OMAC e Darkseid foram os personagens escolhidos. O impacto de Kirby no mundo dos comics foi inestimável, e estas edições são uma celebração apropriada.


Secret Empire #10: Not with a bang, nor with a whisper. O final do evento Secret Empire foi tão morno quanto a série. A premissa inicial parecia intrigante e chocou os fãs, com Steve Rogers/Capitan America a proclamar a sua lealdade à Hydra. O choque diluiu-se com a revelação que tudo se passou numa realidade alterada, resultado da manipulação de um cubo cósmico. O final segue demasiado próximo a um outro evento da Marvel, à época muito mais interessante: Infinity Gauntlet, onde Thanos adquire o controle sobre a realidade ao dominar as jóias do infinito, que colocou na sua manopla.

domingo, 3 de setembro de 2017

aCalopsia: Jardim de Inverno

 

Jardim de Inverno traz aos leitores uma história singela e fabulosamente ilustrada, que nos recorda a existência de uma banda desenhada francófona que vai além das séries que conhecemos de sempre. Tocando nos vazios da solidão urbana, Jardins de Inverno encanta os leitores com a sua história simples e humanista. A ilustração é deslumbrante, oscilando entre o encher do olho com fabulosas paisagens urbanas e o intimiso dos espaços pessoais. Esta edição da Kingpin Books traz-nos um pouco do vasto mundo da banda desenhada francófona, que se durante muitos anos dominou o mercado editorial nacional, agora mal se dá por ela. Crítica completa no aCalopsia: Jardim de Inverno.

sábado, 2 de setembro de 2017

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Wunderwaffen T10: La Nuit des armes miracles



Richard Nolane, Maza, et al. (2016). Wunderwaffen T10: La Nuit des armes miracles. Toulon: Soleil.

Neste episódio desta divertida série de história alternativa, o arco narrativo que já se vem a arrastar há dois volumes sobre o alienígena soterrrado sob o gelo antártico que oferece a sua ajuda às forças nazis fica um pouco de parte. A série regressa às suas origens, ao explorar das possibilidades das armas de vingança de alta tecnologia para a época. Assistimos ao ataque de mini-submarinos altamente manobráveis lançados de submarinos-mãe capazes de atravessar o planeta em poucos dias. De Peenemunde, Von Braun é forçado a lançar o seu protótipo de foguetão-míssil tripulado, capaz de chegar a Nova Iorque em poucos segundos. E, na frente leste, os novíssimos super-panzers aniquilam as forças soviéticas. Tudo numa única noite de ataques fulminantes.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Wonder Woman: Her Greatest Battles


Geoff Johns, et al (2017). Wonder Woman: Her Greatest Battles. Nova Iorque: DC Comics

Um livro que oferece precisamente o que promete : a Mulher Maravilha, em combate. Claramente a aproveitar a onda de interesse desperta pelo filme da personagem, alimentando a curiosidade. Alimentando, mas não saciando. Este livro reimprime batalhas da personagem, mas fá-lo de forma descontextualizada. São fragmentos de arcos narrativos, na parte que culmina em combates épicos. Divertido, mas um mau serviço para se ficar a conhecer melhor a personagem. Dois pontos curiosos: não é só Batman o único herói capaz de derrotar o Super-Homem (leitores de The Dark Knight Returns percebem); a cena de Diana encantada com o sabor de um gelado no filme foi decalcada de um episódio das suas aventuras em comics.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

mimo










Aproveitar um compasso de espera para entrar no Entremuralhas para visitar (finalmente!) o Museu da Imagem em Movimento no Castelo de Leiria. Um museu pequenino, mas com um acervo espantoso e fascinante de máquinas do pré-cinema ao cinema e fotografia. Sem esquecer um toque de computação, como na imagem final, um brinquedo óptico de projecção de cartões sincronizados com som graças ao rolo perfurado no topo.

Comics


Letter 44 #35: E eu que pensava que esta série tinha terminado. A premissa era fantástica, mas arrastou-se imenso. O fim foi, pensava, apropriado e corajoso, com o extermínio da Terra. Infelizmente, os autores não resistiram a este coda, mostrando que no final de tudo, com ajuda de teleportação, parte do planeta e dos seus habitantes se salvou. A mortandade andou pelos biliões, mas o universo não se livrou da humanidade. É simpático, mas quebra o niilismo de um final cheio de força. Pelo menos ficamos a saber a que se refere o número 44: a última ação de um presidente é escrever uma carta ao seu sucessor. Todos os eventos da série estão narrados na carta do 44º presidente.


Manhunter Oversize Special #01: A DC anda a homenagear Jack Kirby, um dos mais influentes artistas da golden age e criador de alguns dos mais distintos personagens, quer desta editora quer de outras. Argumentistas e ilustradores contemporâneos são convidados a criar novas histórias para os personagens de Kirby, imitando o seu estilo gráfico e narrativo. Esta iniciativa arrancou o mês passado com Sandman, que Gaiman viria a revolucionar. Este mês, temos Manhunter e Etrigan. A edição completa-se com reedições de originais de Kirby.

sábado, 26 de agosto de 2017

Areias





The beach edition. Praia do Portinho da Areia Norte, a praia canina de Peniche, penhascos de acesso à Praia da Vigia, e Furnas da Ericeira.