quinta-feira, 19 de abril de 2018

Stratos



Miguelanxo Prado (2000). Stratos. Lisboa: Meribérica-Liber.

Um tremendo e mordaz humor negro atravessa esta digressão clássica de Miguelanxo Prado no terreno da FC distópica. Visitamos um mundo futurista estratificado numa sequência de pequenas histórias amargas, que nos levam desde o nível mais baixo dos proletários descartáveis ao dos administradores de uma sociedade computorizada, maximizada para o lucro. Não há bondade ou moral em nenhum dos estratos sociais, excepto talvez nalguns dos elementos de topo, que engendram a queda da sociedade corrupta e desumana que se mantém para enriquecer elites. O traço do autor anda ainda longe da mestria pictórica no uso de cor que hoje o caracteriza, segue aqui um realismo negro com toque de caricatura disforme, que sublinha o humor negro das histórias.

terça-feira, 17 de abril de 2018

Thor: A Deusa do Trovão


Jason Aaron, et al (2018). Marvel Coleção Especial, #6: Thor - A Deusa do Trovão. Lisboa: Goody.

Transformar Thor, esse ícone da masculinidade pura, entre o selvagem dos longos cabelos louros e testosterona musculada, numa mulher visualmente mais frágil mas com uma enorme força foi dos momentos mais interessantes que a Marvel nos legou, recentemente. Antes de tecer elogios à forma como a editora se adapta à mudança dos tempos, é bom recordar que a mudança, com novos títulos e personagens com maior diversidade de género, cultural e étnica é essencialmente um teste aos mercados, uma forma da editora procurar novos públicos. Mas transformar O Thor em A Thor não deixa de ser uma interessante inversão dos pressupostos tradicionais dos comics.

Esta edição da coleção Marvel Especial da Goody traz-nos os primeiros momentos da nova Thor. Vemos a incapacidade do Thor original em merecer empunhar o lendário martelo, mergulhamos nas políticas internas de uma Asgard à qual regressou Odin, iniciando um confronto entre as velhas e as novas maneiras de governar (no fundo, essa dicotomia entre a tradição masculinizante clássica e a abertura a um mundo mais diverso parece-me ser o tema central desta nova abordagem a Thor), bem como o ressurgir de velhas ameaças. O mais interessante é ver os primeiros passos, titubeantes, da nova personagem, e sondar o mistério sobre a sua real identidade. Diria que esta foi a melhor edição desta coleção da Goody.,

domingo, 15 de abril de 2018

URL


Congressional Testimony: XKCD a ser certeiro. As catástrofes perigosas para a liberdade estão a vir de onde menos se espera.


Down the Tubes: um bocadinho de delícia visual UrbEx/industrial decay.

Humankind’s Most Important Material: do humilde vidro das janelas à fibra óptica, uma curta história de um material que mudou o mundo.

The Era of Fake Video Begins: A Atlantic descobriu os deepfakes: "manipulated video will ultimately destroy faith in our strongest remaining tether to the idea of common reality". Talvez não o fim da realidade consensual, mas certamente mais um sinal da importância de treinar o sentido crítico e não confiar cegamente na informação online.

Can We Make a Musical Turing Test?: Mais um contributo para o debate incómodo sobre a automatização da arte. Se o instinto artístico não é reduzível a computação, as estruturas que utiliza para expressão podem sê-lo: "Does a machine have to be truly ‘creative’ to produce something that someone would find valuable? To what extent would listeners’ attitudes change if they thought they were hearing a human vs. an AI composition?"

In blockchain we trust: O blockchain como a tecnologia com impacto global que emergirá da corrente bolha especulativa à volta das criptomoedas, utilizando código aberto como forma de automatizar os processos de confiança contratual.

Bitcoin would be a calamity, not an economy: Como é que realmente funcionaria uma economia baseada em bitcoin? Mal, aparentemente. Concentração excessiva, falta de proteção em caso de crise financeira, latência excessiva nas transações e tendência para especular sobre o seu valor e não em dar-lhe uso monetário.

The demise of the nation state: Globalização, estados falhados, populismo, renascer dos nacionalimos e neo-fascismos, regionalismos exacerbados, terrorismo, crises de refugiados, aquecimento global: "National governments possessed actual powers to manage modern economic and ideological energies, and to turn them towards human – sometimes almost utopian – ends. But that era is over. After so many decades of globalisation, economics and information have successfully grown beyond the authority of national governments. Today, the distribution of planetary wealth and resources is largely uncontested by any political mechanism". A ordem política do século XX colapsou mas ainda não se apercebeu da sua queda, arrastando-se como um zombie num mundo transformado?

Apresentação da colecção Bonelli: João Lameiras apresenta a coleção Público/Levoir dedicada aos heróis italianos da Bonelli, que trará ao público português Dylan Dog, Martin Mystére, Mister No, Dampyr e Tex, entre outros.

Bonelli, o outro nome da BD popular: Para completar a excelente introdução de Lameiras ao trabalho editorial da Casa Bonelli, um artigo onde Pedro Moura faz uma análise crítica ao historial desta editora, que define, na prática, o fumetti.

Public goods are REALLY good: thousands of years later, the Roman roads are still paying dividends: Uma curiosa correlação entre zonas desenvolvidas na Europa contemporânea e a rede de estradas construída pelo império romano.

Why Authoritarians Attack the Arts: isto: "Art creates pathways for subversion, for political understanding and solidarity among coalition builders. Art teaches us that lives other than our own have value". 

sábado, 14 de abril de 2018

quinta-feira, 12 de abril de 2018

20th Century Boys


Naoki Urasawa (2009). Naoki Urasawa's 20th Century Boys, Volume 01: Friends. São Francisco: Viz Media.

O mangá segue uma forma narrativa episódica, em que sabemos à partida qual o sentido da história. O resto são peripécias a cada novo episódio, que adensam a narrativa. Não é o caso destes 2oth Century Boys, em que ao fim dos dez episódios coligidos o leitor fica sem saber qual o rumo da história. É intencional. Em vez de largar a premissa central como pedra angular da narrativa, Urasawa revela-a muito subtilmente ao longo de cada episódio. Sabemos, pela sinopse, que nos primeiros anos do século XXI a humanidade esteve ameaçada por uma catástrofe e só os rapazes que irão ser retratados nas aventuras a travaram. Mas isso não nos é expresso nas histórias, que cumulativamente constroem um ambiente de conspiração bem medido, com símbolos misteriosos e seitas secretas. As histórias olham para o passado, para a infância de um grupo de jovens adultos que descobre, na notícia do suicídio de um deles, indícios de que algo mais se irá passar. Urasawa é um mangaká com um estilo narrativo dinâmico, e um belíssimo construtor de histórias envolventes.

terça-feira, 10 de abril de 2018

Megatech: As Grandes Inovações do Futuro



Daniel Franklin (ed.) (2017). Megatech: As Grandes Inovações do Futuro. Lisboa: Clube do Autor.

Um conjunto de ensaios que reúne cientistas, futuristas, empreendedores, filósofos, analistas, tecnólogos e autores de ficção científica que tenta extrair sentidos e caminhos num futuro próximo marcado pela aceleração tecnológica. Parte dos textos mantém-se no optimismo acrítico que caracteriza este tipo de livros. Outros focam-se no impacto social das previsões sobre avanço da tecnologia. Alguns mostram pontos de vista interessantes, que contrariam o discurso alarmista sobre inteligência artifical e automação, temperado a especulação com dados sobre os seus potenciais e limites.

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Comics


2000AD 2075: Judge Dredd está no seu melhor não como policial futurista, mas como ironia corrosiva onde cidadãos normais se vêem encurralados em armadilhas kafkianas por um sistema jurídico proto-fascista.  Os arcos narrativos publicados na 2000 AD exploram outros caminhos, mas de vez em quando a revista dá-nos a pura essência de Dredd, uma personagem de profunda crítica social e política disfarçada de policial futurista.


Batman #44: Com o grande evento de casório entre Batman e Catwoman a aproximar-se, Tom King mostra-nos a evolução da ambígua ligação entre os dois personagens, com um forte tom retro.

aCalopsia: Dragomante

 

Descobri-me algo surpreendido por ter dado conta que li, e gostei, de uma edição de fantasia épica. Visualmente deslumbrante, com uma história interessante, Dragomante é uma excelente proposta de banda desenhada portuguesa co-editada pela Comic Heart e G.Floy numa edição cartonada, de luxo. Um livro que não deixa os leitores indiferentes, mesmo que não se seja fã de fantasia épica. Crítica completa no aCalopsia: Dragomante.

domingo, 8 de abril de 2018

URL



Robbie Barrat's AI-generated nude paintings make Francis Bacon look like a genteel pre-Raphaelite: Se Bacon e Caravaggio acasalassem e tivessem um descendente mutante com traços de esquizofrenia e a capacidade de combinar os seus estilos pictóricos, provavelmente daria nisto. Imagens criadas por uma IA com a técnica de generative adversarial network, aprendendo generativamente por contraposição de resultados a partir da aprendizagem de um banco de dados. O que mais intriga neste tipo de experiência é a forma como questiona a humanização inerente à arte, uma daquelas áreas de atividade humana que acreditamos imunes à inteligência artificial precisamente pela combinação de mestria individual, pensamento e carga emocional que só os humanos parecem capazes de atingir. Por complexos que sejam os algoritmos de IA, não são seres conscientes, com sentimentos, e no entanto parecem ser capazes de gerar iconografias inquietantes, para lá da fronteira do derivativo.

Crooked Masters: How He-Man Colonized a Generation’s Imagination: A série camp clássica de animação revista nos seus pressupostos. E se Skeletor for o verdadeiro herói, combatente pela libertação da sua pátria, reunindo os oprimidos contra a tirania da ocupação pelos convenientemente louros e caucasianos Masters of the Universe?

Do Inferno. Alan Moore & Eddie Campbell (Biblioteca de Alice): Crítica profunda à edição portuguesa da Devir de From Hell, por Pedro Moura.

2001: A Space Odyssey Predicted the Future—50 Years Ago: Stephen Wolfram reflete na forma como, cinquenta anos após a sua estreia, o filme 2001 ainda invoca visões de puro futurismo.

50 years of 2001: A Space Odyssey – how Kubrick's sci-fi 'changed the very form of cinema' : Comemorando os cinquenta anos da estreia de 2001, personalidades ligadas ao cinema refletem nas vertentes de influência deste filme na cultura cinematográfica.

Dostoievski desvelado"Pois vejo antes de tudo isso, uma capacidade para antever o ser humano na sua infinita complexidade e variabilidade, e uma recusa da simplificação desse humano, daí o surgimento de "Crime e Castigo"". Pergunto-me se o título do post é uma referência a Isis Unveiled? Linguística, não temática, claro.

The Best Science Fiction Movies and Shows on Netflix Right Now:  Netflix and... chill with SciFi.

When the Heavens Stopped Being Perfect: Galileu, a invenção do telescópio e a forma como o olhar frio do cientista pode destruir as visões do imaginário.

sábado, 7 de abril de 2018

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Travelling to Utopia


Michael Moorcock (2014). The Michael Moorcock Collection: Travelling to Utopia. Londres: Orion Books.

Três romances de Moorcock, reunidos em antologia. Não partilham universos comuns, apenas uma ideia longínqua de utopias, quer artificiais (The Wrecks of Time, onde a Terra é um constructo artificial criado pelos sucessores da humanidade), pós-apocalípticos (The Ice Schooner, onde a Terra congelou, e os sobreviventes erguem uma nova civilização) ou longínquos (The Black Corridor, onde um planeta habitável poderá ser o único refúgio de uma Terra em desagregação violenta). Moorcock é um mestre da prosa rápida, com histórias que se lêem a bom ritmo.

The Wrecks of Time: duas organizações lutam entre si com Terras paralelas como palco. Após a descoberta da existências de mundos paralelos, uma dedica-se a salvar os habitantes de outras Terras de cataclismos terminais, enquanto a outra organização os parece provocar. A verdade é mais complexa. Todas as Terras são simulações, criadas por seres que transcenderam a humanidade ao explorar os multiversos, e, regressados ao berço, recriam continuamente o seu planeta de origem para perceber como evoluiu a sua civilização. Os habitantes das Terras estão vivos, mas são apenas elementos de complexas simulações que invariavelmente terminam com o extermínio do planeta onde vivem. O criar de um novo simulacro, conjugado com as ações das fações em luta e a interferência de agentes andróides dos criadores, permitem uma direção inesperada para esta longa experiência. A premissa do romance é muito interessante: o que aconteceria se as simulações fossem habitadas por seres vivos e conscientes. O estilo narrativo de Moorcock mantém essa ideia em desenvolvimento lento, enquanto a narrativa se centra nas disputas entre organizações e a descoberta progressiva do mistério das Terras paralelas.

The Ice Schooner: Um daqueles livros que se lê de uma assentada, em parte pela típica escrita escorreita de Moorcock, autor especialista em literatura que agrada ao leitor, em parte para se perceber como é que o autor encerra uma premissa que é óbvia desde as primeiras linhas. The Ice Schooner mergulha-nos nas aventuras de um capitão caído em desgraça, que encontra numa cidade rival da que é originário uma nova vida e inúmeras aventuras. Tudo por ter, em plena desolação gelada, salvo um homem que se vem a revelar como o líder da cidade. O resto é intriga e aventura, com o capitão a ganhar um novo comando, liderando os descendentes do líder e uma tripulação inquieta num navio que sulca os gelos, em busca da mítica cidade de Nova Iorque.

É aqui que reside o cerne do mundo ficcional do romance. O futuro trouxe uma nova idade do gelo, e a humanidade sobrevive em cidades escavadas sob o planalto gelado que cobre a antiga amazónia. As extensões geladas são percorridas pelos navios de gelo, construídos com tecnologias já esquecidas como quilhas em fibra de carbono e cordame de nylon, em comércio ou à caça de manadas de baleias, que largaram os oceanos e ganharam pelagem, atravessando o gelo interminável. Corremos com a tripulação do navio de gelo para a mítica cidade de Nova Iorque, desejosos de saber como é que Moorcock monta o puzzle deste universo. Encontramos lá os descendentes de outros sobreviventes dos primeiros gelos, que foram capazes de preservar a ciência e tecnologia, e que sabem que as idades do gelo são cíclicas e uma nova mudança vem a caminho, com o degelo progressivo do planeta.

The Black Corridor: Numa nave espacial em fuga de uma Terra em desagregação, o único tripulante que se mantém fora de hibernação começa a sofrer de alucinações. Um tema comum em Moorcock é o apocalipse por fragmentação, a acontecer não por conflitos entre grandes blocos de nações mas pela fragmentação em grupinhos nacionalistas que se guerreiam até à extinção (os romances que compõem o Cornelius Quartet vivem essencialmente disto). Um pequeno grupo de sobreviventes foge de uma Inglaterra onde a própria cidade de Londres se pulverizou em bairros que se combatem com armas nucleares, e escapa-se do planeta em direcção a um possível planeta habitável a orbitar a estrela de Barnard. Nunca saberemos se lá chegarão. Todo o romance é um mergulho na progressiva decadência mental de um homem, atacado pela solidão profunda no espaço sideral.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

aCalopsia: Descender



A Ficção Científica é um género que vive muitas mortes anunciadas. Uma visão cíclica, vinda não do poder editorial (as novas edições de FC no mercado internacional não são às pazadas, são mais comparáveis a porta-contentores atafulhados em risco de rebentar) mas de uma certa ideia de estagnação e isolamento face ao mainstream da cultura popular. Algo que se alia à sensação que hoje vivemos em plena science fiction condition, que este género já não tem voz refrescante ou nada que nos desperte as ideias numa era de constante banalização de prodígios da ciência e tecnologia. A contrariar os prenúncios fatalistas, o cinema tem-nos legado excelentes visões de FC no grande ecrã, ou diretamente para os pequenos ecrãs fragmentados da diáspora digital (caso do recente Anihiliation, baseado no romance homónimo de Jeff Vandermeer, relegado para a Netflix por decisão de executivos culturalmente conservadores). A banda desenhada também não foi alheia a este movimento, especialmente graças à Image, que tem dado luz verde aos seus criadores para editarem séries de ficção científica pura. Há dois ou três anos atrás, grande parte dos novos títulos da esditora eram pura ficção científica e especultativa. Um impulso que agora tem perdido alguma força, com o regresso progressivo dos géneros fantasia e crime. As temáticas editoriais são cíclicas, respondendo aos interesses dominantes do público. Crítica completa no aCalopsia: Descender Volume 1.

terça-feira, 3 de abril de 2018

Dark Water


Koji Suzuki, Meimu (2004). Dark Water. Houston: ADV Manga.

As águas escuras da baía de Tóquio são a fonte de inspiração para estas histórias curtas de Koji Suzuki. Dark Water é a mais conhecida, dando origem ao filme do mesmo nome. É de facto a história mais complexa desta curta antologia, sobre as angústias de uma mãe solteita a viver num prédio decrépito, encimado por uma torre de água que poderá abrigar o espírito de uma criança assassinada. As restans histórias são mais curtas, seguindo esquemas de horror clássico, sem grandes surpresas nem construção de um clima de terror eficaz. Apenas a última, Forest Under The Sea, com a sua evocação de cavernas semi-submersas, consegue despertar algum interesse acima da mediania. O estilo visual do ilustrador, embora competente, não consegue criar sensações ou ambientes de histórias de horror.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Comics


2000AD #2074: Deadpool tem fama de ter o mais divertido dos heróis amorais com violência extrema. Pessoalmente, discordo. Nestas coisas, pensar que uma personagem pop é um pico criativo geralmente significa que não se conhece mais do que isso. Para quem achar que piadas infantis e quantidades elevadas de sangue, vísceras e balas são a epítome do humor negro, bem, enfim, apresento-vos Sinister Dexter. A dupla de assassinos profissionais mais bem sucedida de Downlode, cidade futurista que tem o seu quê da Miami de Miami Vice, mas no futuro e com forte tendência para nomes em língua eslava. Dan Abnett tem nas páginas da 2000 AD sido especialmente cáustico no explorar do potencial de humor violento presente nas personagens de Mr. Sinister e Mr. Dexter. Não poupa nas quantidades elevadas de sangue, vísceras e balas, mas o humor negro é bem negro.


Doomsday Clock #04: Geoff Johns anda a tentar ser mais Alan Moore do que o próprio Moore nesta série. A validade do conceito de trazer os personagens de Watchmen para a continuidade da DC é discutível. São propriedade intelectual, já o eram antes de Moore os ter reinventado, e a DC é uma editora comercial. A cultura pop é mesmo assim. Já o mérito da forma como estão a ser introduzidos é que é discutível. Doomsday Clock tem sido anunciado com enorme fanfarra e empolamento, na realidade é um comic pedante e pretensioso, que vive da imitação estética e estrutural do trabalho de Moore e Gibbons. O trabalho visual é mesmo o melhor da série, já que o esforço intelectual de Geoff Johns vai todo no sentido de emular o original, uma forma de alguém claramente pouco talentoso reclamar louros como autor de um suposto clássico dos comics.

domingo, 1 de abril de 2018

aCalopsia: Hanuram, o Dourado



Baixinho e encorpado, a puxar para o roliço, de cabelo esparso. Mas não se deixem enganar pela aparência insignificante. Hanuram é duro, e sobrevive a todas as temíveis criaturas que os deuses, irados com as suas ações, lhe colocam pela frente. Já aos adversários, a sobrevivência é impossível. Um bárbaro feiote é dificilmente o herói típico das epopeias de espada e feitiçaria, mas o traço e capacidades narrativas de Ricardo Venâncio torna este um dos livros de banda desenhada portuguesa mais interessante dos últimos tempos. Crítica completa no aCalopsia: Hanuram, o Dourado.

sábado, 31 de março de 2018

Lost+Found






Coisas de outros dias, depois de uma semana passada em pontos das reuniões de avaliação de alunos.

Rascuhos na Voz Online


Tenho andado com pouco tempo para o fandom geek, culpa das aventuras no derretimento controlado de termoplásticos. Esta notícia já me tinha cruzado o radar, mas ainda não a tinha registado. É uma iniciativa significativa, que mostra o crescimento sustentado da comunidade de fãs de fantástico, ficção científica e fantasia por cá. Não parece, mas o crescimento de iniciativas, eventos e edições tem sido assinalável, muito graças ao dinamismo de algumas das personalidades que se destacam no meio cultural. Um programa de rádio online, regular, a discutir literatura de FC & F e coisas geek só pode ser mais uma excelente iniciativa, e a Cristina Alves está de parabéns pelos programas. Podem ouvi-los na página Mixcloud da Rádio Voz Online. Pessoalmente, vou testar se não são dissonantes com o zumbido do extrusor a depositar filamento.

quinta-feira, 29 de março de 2018

aCalopsia: Assassin's Creed: Prova de Fogo


Assassin's Creed Prova de Fogo marca uma nova aventura editorial no domínio da edição de comics em português. Uma série que não surpreende nem deslumbra, apenas entretém. Para os fãs mais ferrenhos da saga Assassin’s Creed, esta é uma boa adição que leva o mundo ficcional da série para lá do ecrã. Para leitores de BD apostados em entretenimento, diria que safam melhor com com o alinhamento Marvel da goody, embora como as expectativas não são à partida elevadas, este volume não desiluda. Crítica no aCalopsia: Assassin's Creed - Prova de Fogo.

Project MARS: A Technical Tale


Wernher von Braun (2006). Project MARS: A Technical Tale. Burlington: Collector's Guide Publishing.


Este é o tipo de livro que se lê como referência e não por gosto. A seu favor tem alguma plausibilidade científica, vinda daquele que foi um dos pais da astronáutica contemporânea. À luz da tecnologia e conhecimento científico da época, uma expedição a Marte nos moldes descritos no livro parecia possível, apenas uma questão de esforço financeiro e engenharia. Hoje sabemos que a questão da sobrevivência do homem em viagens espaciais não é assim tão simples.

No que toca à Ficção Científica, este livro é verdadeiramente atroz. Essencialmente, é um longo infodump, cada capítulo é essencialmente uma explicação longa e especulativa sobre o como poderia ser uma missão a Marte. Até mesmo para alguém como eu, que adora infodumps, parece excessivo. No entanto, é de ressalvar que este livro não foi escrito com ambições literárias. O seu objetivo expresso é suavizar a dureza matemática da especulação científica através de uma fantasia.

Mesmo a essa luz, o romance contém ideias estranhas, tendo em conta que são formuladas por um cientista bem informado e de vanguarda. A premissa do livro, o que leva a humanidade a aventurar-se até ao planeta vermelho, é a hipótese de existência de uma civilização marciana, baseada na observação dos canais na superfície do planeta. Uma ideia que creio, na altura em que este livro foi escrito, já tinha caído em descrédito. Mas a coisa piora. Ao chegarem a Marte, os intrépidos exploradores deparam-se de facto com uma civilização alienígena, de seres em tudo similares aos humanos, excepto por uma maior amplitude cerebral. A justificação dada pelo autor é a de ser natural que noutro planeta, a evolução seguisse os ditames de Deus na criação de uma espécie superior.

Há nesta filosofia alguns traços do passado do autor, muito branqueado pelo seu papel no domínio do desenvolvimento da tecnologia astronáutica. Não se coopera com um regime Nazi apenas porque é a única maneira de criar foguetões, é impossível não suspeitar de uma maior cumplicidade ideológica. Ao conceber uma civilização marciana à imagem do ser humano, o espectro dos ideários sobre superioridade de raças levanta-se. Um vislumbre ideológico que se torna mais óbvio ao retratar uma civilização avançada. caracterizada por estabilidade e onde a tecnologia garante um elevado nível de conforto. Elementos assumidos como conducentes à decadência, inércia moral e científica. Novamente, ideias que não são estranhas aos credos que influenciaram aqueles que mergulharam a Europa na página mais negra da história, e com os quais o autor foi conivente.

No que toca ao lado estritamente especulativo sobre viagem espacial, o livro reflete o conhecimento da época. Uma Terra unificada numa democracia global após uma guerra mundial (inevitável, com o aniquilamento soviético, que nisto de especulações futuras o esquerdismo quer-se longínquo) une-se num desafio exploratório, desenvolvendo tecnologia para levar o homem a Marte. A colonização da órbita terrestre está a iniciar-se, com uma estação de observação militar e observatórios em órbita, resta apenas adaptar a tecnologia existente para atravessar o espaço interplanetário.

Von Braun não é um  nome anónimo. O seu papel no desenvolvimento de foguetões foi fundamental para a evolução da exploração espacial. Estamos a falar do homem que na Alemanha Nazi liderou a criação dos primeiros foguetões e mísseis suborbitais, e posteriormente, com o passado branqueado nuns acolhedores Estados Unidos, esteve na linha da frente do desenvolvimento dos foguetões que abriram a fronteira do espaço. Foi sob sua liderança que o ainda inagualável Saturno 5 levou astronautas a pisar o solo lunar. Originalmente publicado em 1953, Project Mars é, como o próprio afirma no prefácio, uma forma suave de especulação informada, mostrando a sua visão de como poderia ser uma expedição a Marte com a tecnologia que o próprio autor estava a ajudar a desenvolver. Nesse aspeto, como retrato instantâneo de um momento na história da ciência, este é um livro interessante, embora os aspetos literários sejam fracos e algum ideário que lhe está subjacente ser incómodo. No entanto, para quem se interessa pela história quer da ficção científica quer da tecnologia, é um livro de referência a descobrir.

quarta-feira, 28 de março de 2018

The Innovators



Walter Isaacson (2014). The Innovators: How a Group of Hackers, Geniuses and Geeks Created the Digital Revolution. Nova Iorque: Simon & Shuster.

Uma boa introdução à história do desenvolvimento da tecnologia digital, a começar em Babbage e Lovelace e a terminar, com muita lógica e alguma filosofia, nos tempos contemporâneos com Lovelace, novamente. Pelo caminho é traçada uma história da evolução da tecnologia digital, equilibrando a narrativa histórica com um olhar crítico. Isaacson tem uma ideia a defender, e aproveita todos os momentos para a defender. Para ele, os inovadores não são os génios e inventores que trabalham isolados nas garagens ou laboratórios, mas aqueles que se reúnem em equipas multidisciplinares, concebendo as suas invenções não como provas de conceito, mas como utensílios e produtos com aplicação prática.

É na controvérsia sobre quem teria construído o primeiro computador digita que explora mais profundamente este ponto de vista. Isaacson estabelece um forte contraste, sublinhando também algumas interligações, entre as histórias de John Atanasoff e de Mauchly e Eckert. O primeiro quase construiu o primeiro computador programável de uso geral, mas fê-lo isolado no seu laboratório. Sem uma equipa muldisciplinar para o auxiliar, não conseguiu resolver alguns problemas fundamentais. A máquina acabou esquecida numa arrecadação. Já Mauchly e Eckert, apesar de terem construído o seu Eniac após Atanasoff, e utilizado as suas ideias e conceitos, conseguiram criar uma máquina que realmente funcionava. Esse, para Isaacson, é o verdadeiro teste de validade histórica.

Este é um padrão que mantém ao longo de todo o livro, quando nos fala dos fracassos de Babbage, das máquinas de cálculo electromecânicas, do papel de Turing e dos decifradores de código no desenvolvimento do Colossus, na disputa entre Atanasoff e Mauchly e Eckert, nos esforços da IBM, nos dois momentos de surgimento da cultura tecnológica de Sillicon Valley (na inicial, com o desenvolvimento de semi-condutores, e posteriormente com as empresas de garagem que se vieram a tornar gigantes da tecnologia), sobre o desenvolvimento da Internet, terminando com a Web, culturas colaborativas e inteligência artificial/aumentada. Neste aspeto, o livro perde pela intensidade com que todas as histórias que compõem a história da informática são instrumentalizadas por Isaccson com um fervor quase ideológico.

Isaacson tem um fascínio pela figura de Ada Lovelace, e não é por acaso que inicia e encerra o livro com ela. Pormenor curioso, invoca Ada para falar das problemáticas da inteligência artificial. Para o autor, Ada Lovelace encarna aquilo que considera desejável na cultura tecnológica: sólido saber científico aliado ao humanismo. Aqui, o livro dá-nos um ponto de vista muito pertinente, com Isaacson a zurzir quer naqueles que se se reduzem à lógica cientifica e tecnológica, quer aos que a recusam em nome de superioridade cultural. Incompatibilizar tecnologias com arte e cultura é sinal de miopia, de ignorância assumida e preguiça intelectual. O melhor, diz-nos, está no cruzamento dos dois mundos, e pessoalmente concordo muito com esta ideia.

terça-feira, 27 de março de 2018

The Adventures of Sherlock Holmes



Arthur Conan-Doyle (2004). The Adventures of Sherlock Holmes. Londres: Macmillan Collector's Library.

Este livro reúne as histórias clássicas de Conan Doyle que estabeleceram Sherlock Holmes como a mais marcante personagem da literatura policial. Não sendo o inventor do género de detective de intelecto afinado que resolve mistérios criminosos através da pura dedução, foi Doyle que o refinou, legando-nos a imagem que define a ideia de detective. São histórias fechadas, dependentes da capacidade de reparar em pormenores ínfimos, com histórias que se desenrolam de formas inesperadas. Um merecido marco literário.

A Scandal in Bohemia - Contactado pelo futuro monarca do reino da Boémia (hoje, parte da república Checa), Sherlock mergulha num mistério em que sairá derrotado. O futuro monarca quer recuperar uma fotografia comprometedora, tirada com a atriz Irene Adler, por quem se tinha apaixonado anos atrás. Um fantasma do passado, que poderá colocar em perigo a sua futura união real com a filha de aristocratas conservadores. Há indícios que Irene poderá usar a foto como forma de chantagear o futuro rei, e o seu casamento apressado com um advogado londrino desperta ainda mais suspeitas. Sherlock socorre-se de um elaborado estratagema para aceder à casa de Irene para tentar recuperar a imagem comprometedora, mas acabará por falhar. Irene também tem os sentidos bem apurados e é capaz de reconhecer o detective mesmo com este debaixo dos seus lendários e irreconhecíveis disfarces. O caso acaba por se resolver por si próprio quando em fuga, Irene deixa uma nota a Sherlock detalhando como o descobriu e como realmente tenciona utilizar a foto - não para chantagear o futuro monarca, mas como protecção contra possíveis ações futuras deste. Uma história de inversões, em que o grande detective é derrotado pela intuição feminina e aquele que à partida parece ser a vitima é, de facto, o potencial vitimizador.

The Red-Headed League - É um mistério bizarro, sobre uma estranha sociedade que paga a um lojista com um negócio de baixo rendimento uma quantia apreciável para estar todas as manhãs num escritório a copiar entradas da enciclopédia britânica. Sherlock desconfia de algo mais grave do que uma entidade misteriosa com iniciativas excêntricas. Não lhe é difícil deduzir que o estratagema se destina a afastar o lojista do seu espaço, enquanto um par de refinados meliantes escava um túnel para assaltar um banco na vizinhança.

A Case of Identity - Os poderes dedutivos de Holmes não precisam de muito esforço para deslindar este bizarro mistério. Uma jovem contacta-o, desesperada pelo desaparecimento súbito do seu noivo. Interrogando-a, analisando-a com o seu olhar dedutivo, apercebe-se que os momentos em que se cruza com o noivo coincidem com longas viagens do seu padrasto, um homem jovem que casou com uma mãe viúva por causa de dinheiro. Não lhe é difícil perceber que o noivo e o padrasto são o mesmo homem, com um disfarce que engana facilmente uma vítima algo pitosga. O motivo é perfeitamente venal, o manter a generosa herança da jovem na família.

The Boscombe Valley Mistery - O sempre vitimizado inspector Lestrade (a forma como Sherlock o descreve e se lhe dirige seria hoje qualificado como bullying) convida o detective a deslocar-se a uma vila do interior inglês, a pedido de uma familiar do suspeito de um crime de assassinato. Claro que o poder dedutivo do grande detective depressa conclui que o suspeito está inocente, e que por detrás do crime está uma velha e sórdida história vinda dos tempos em que a vítima, e um seu aparente amigo na Inglaterra actual, viviam aventuras no lado errado da lei nas colónias australianas.

The Five Orange Pips - Sherlock é contactado por um assustado herdeiro, que recebeu a sua fortuna após a morte aparentemente natural do seu tio e pai. Nada nas mortes aponta para assassínio, mas o jovem notou que imediatamente antes as vítimas receberam uma carta contendo cinco caroços de laranja. Um mistério que terá final infeliz, uma vez que o jovem tornar-se-á a terceira vítima, mas mesmo assim Sherlock consegue deduzir quem são os criminosos - elementos do KKK, em busca de vingança vinda do passado do tio do jovem.

The Man With The Twisted Lip - Parece, à partida, um típico caso sórdido de desaparecimento de um homem num dos antros de ópio londrinos. A mulher do desaparecido, um pacato suburbanita que vai e vem todos os dias para a cidade da sua sua casa nos subúrbios, está em pânico, depois de aparentemente o ver a ser atacado numa janela. Não há cadáver a flutuar no Tamisa e o único suspeito é um miserável mendigo. Um homem que Holmes acaba por descobrir ser, afinal, o desaparecido. O seu segredo? Como jornalista, após uma reportagem em que se tornou mendigo durante uns dias, percebeu que poderia ganhar mais seguindo a via do pedinte do que como mero assalariado. E assim o fez, saindo de casa diariamente bem apessoado para chegar a Londres, disfarçar-se como mendigo, e com isso ganhar o suficiente para adquirir uma pacata vivenda e casar-se. No entanto, a ideia de se desmascarado enche-o de horror.

The Blue Carbuncle - Um divertido mistério, cheio de mal entendidos, onde um ladrão pouco convicente perde o produto do seu impulsivo acto graças a um peru. Tudo é descoberto quando um guarda simpático dá a Sherlock um chapéu e um peru, que recuperou ao tentar ajudar um homem a ser assaltado. Como a vítima fugiu, resta a Holmes deduzir a sua identidade, mas o mistério adensa-se quando, dentro das entranhas do animal, se encontra uma jóia rara roubada há pouco tempo. O fio da narrativa acaba por conduzir o detetive ao irmão de uma criadora de perus, um homem que não tendo instintos criminosos, cede momentaneamente  à tentação de enriquecer.

The Speckled Band - Quando Sherlock recebe um pedido de ajuda de uma jovem em desespero, tudo aponta para que seja o seu padrasto o responsável pela morte da irmã, bem com dos acontecimentos que a ameaçam. Homem taciturno, retirou-se para uma casa aristocrática após alguns anos como médico na índia, e o único rendimento que tem depende de manter as filhas na família. Resta saber o como os crimes acontecem, e só a intervenção de Holmes, acompanhado pelo temerário Watson, vai despoletar acontecimentos que levam à morte do criminoso. O culpado? Uma serpente venenosa trazida da Índia, que se assusta durante a noite quando o criminoso a lança em direção ao quarto onde pensa estar a filha adoptiva, mordendo-o com uma dentada fatal.

The Engineer's Thumb - a história incrível das peripécias nocturnas de um engenheiro, paciente urgente do Dr. Watson, que lhe aparece no consultório com um dedo cortado, permitem a Holmes desmascarar um perigoso bando de falsários, que numa pacata aldeia dos arredores de Londres se dedicavam a cunhar moeda falsa. O que os desmascara? O raciocínio rápido do engenheiro, em risco de ser esmagado pela prensa hidráulica que foi contratado para reparar, sob a falsa informação que se tratava de uma operação mineira incipiente.

The Noble Bachelor - A sociedade londrina e a Scotland Yard estão aturdidas com o mistério que rodeia o desaparecimento da jovem esposa de um nobre inglês, logo após a cerimónia de casamento.  Nobre de boas famílias mas com penúria de meios, o homem encontrou numa jovem filha de um milionário americano a solução para a sua solidão... e problemas financeiros. Suspeita-se que o mistério poderá ter a ver com os ciúmes de um antigo amor do nobre, mas Holmes deduz, pela cadeia de acontecimentos, a verdade. Afinal, a noiva já se tinha casado, anos atrás na américa. Um casamento feito de separações, com o marido disposto a triunfar como mineiro de ouro antes de reclamar, e que parecia ter terminado com a suspeita que este tinha sido morto num ataque de índios a um campo de mineiros. Afinal sobreviveu, e ao procurar pela esposa descobre-a noiva de um nobre inglês, viajando para Londres mesmo a tempo de se encontrar com ela logo a seguir à cerimónia de casamento. Nisto tudo, o final mais infeliz é mesmo o do saldo financeiro do nobre inglês abandonado no altar.

The Beryl Coronet - Um banqueiro londrino parece à beira de enfrentar a ruína. Aceitou uma jóia de valor incalculável como garantia de um avultado empréstimo rápido a uma figura da alta sociedade britânica, e sofreu um roubo em casa, onde desaparece parte da jóia. A culpa parece ser do seu filho, jovem distante do pai e cheio de dívidas de jogo, mas Holmes depressa deduz o inesperado. A culpa do roubo recai sobre o amante da sobrinha do banqueiro, uma rapariga recatada que cai facilmente nas mãos de um homem sem escrúpulos, e o filho estava a fazer o que podia para salvar a honra da família.

The Copper Beeches - Quando uma candidata a governanta pede conselho a Holmes sobre o seu futuro empregador, este fica intrigado com o ar de mistério sem que tenha razões aparentes para isso. Ao fim de alguns meses, estranhos acontecimentos na casa levam a governanta a contactar novamente o grande detective, e com isso a verdade descobre-se. A pacata família que a emprega encerra numa ala abandonada da sua mansão uma filha, prisioneira para que um casamento não retire ao pai, viúvo e casado em segundas núpcias, rendimentos vindos do dinheiro da sua mãe.

segunda-feira, 26 de março de 2018

Comics


Barbarella #04: Mike Carey continua a levar o seu revivalismo da personagem clássica da BD de FC francesa para terrenos firmes de space opera. Sendo a personagem que é. não deixa de parte alguns toques de erotismo, mas como o público-alvo é o mercado americano, não há aqui algo que inflame os pruridos do lado de lá do atlântico.


Descender #28: Lemire revela-nos neste número a pedra-chave da sua brilhante space opera, e o porquê do seu nome. Sem querer fazer um enorme spoiler, digamos que é uma reflexão sobre a tendência humana para instrumentalizar o que o rodeia para o colocar a seu serviço, em nome de conceitos de superioridade absoluta sobre outros.

sexta-feira, 23 de março de 2018

Acadie

 
Dave Hutchinson (2017). Acadie. Nova Iorque: TOR.

É raro um livro de FC nos apanhar de surpresa. Especialmente quando se trata de Space Opera. Este é um desses. Somos mergulhados num vórtice literário, num mundo ficcional típico do género. Estamos num futuro profundo, a humanidade espalha-se pela galáxia, e seguimos um grupo de renegados que quebram os grilhões legais da pesquisa genética para criar humanos geneticamente melhorados. Perseguidos pelas autoridades terrestres, constroem a sua utopia em sistemas solares considerados inválidos para colonização pelo gabinete que gere a expansão humana. Aí criam estações avançadas, com pessoas fortemente modificadas, mais inteligentes do que o humano-base, desenvolvendo tecnologias avançadas que mantém em segredo de uma humanidade que os persegue.

Ou então nada disto é assim. Estes renegados são perseguidos por crimes que cometeram, especialmente na manipulação genética forçada de colonos em naves capturadas, e os resultados são abominações físicas e anormalidades. A sua tecnologia é falível e primitiva, mas violenta, e tudo o que as autoridades querem é capturar os criminosos e salvar aqueles que caíram nas suas garras.

Seguimos a história pelo ponto de vista de um dos renegados, encarregue de ficar trás e eliminar os vestígios de tecnologia de uma zona prestes a ser capturada pelas autoridades, cobrindo a fuga da colónia. Ao seu olhar, este é um mundo de perfeição pós-humana, um sonho futurista de libertação genética e tecnologia avançada. Mas a sua perceção será desafiada pela interação com uma sonda das autoridades terrestres, que lhe revela o seu ponto de vista, intuindo que aquilo que para ele é a primeira vez, para os tripulantes da sonda é um acontecimento recorrente. Talvez ele seja uma inteligência artificial convencida que é um ser humano, incapaz de percecionar a realidade tal como ela é.

Este livro é deliciosamente curto e inconclusivo. Apetece ler mais, mas ainda bem que se mantém conciso. Onde outros escritores optariam por criar sagas em multi-volumes de calhamaços de páginas, esmifrando os mais ínfimos pormenores, Hutchinson mantém a história ao nível de rascunho bem definido. O resultado é um elevado nível de narrativa cativante, que provoca a mente do leitor a ir mais longe, imaginar os detalhes que faltam. Uma experiência literária mais imersiva do que o detalhar pormenorizado do mundo ficcional.

quinta-feira, 22 de março de 2018

O Infante Portugal e a Íntima Capitulação


José de Matos Cruz (2010). O Infante Portugal e a Íntima Capitulação. Lisboa: Apenas Livros.

Recordei-me de uma edição do Fórum Fantástico onde o autor deste livro foi apresentá-lo. Despertou-me alguma curiosidade, com a utilização de simbologia portuguesa em contextos fantásticos, mas não cheguei a trazer nenhum dos seus livros. A coisa ficou perdia na memória, mas esta ao funcionar dá-nos algumas surpresas. Como quando, a vasculhar um caixote de livros semi-abandonados numa livraria, me deparei com este livro e o identifiquei. No entanto, após a leitura, gostaria muito que os neurónios não tivessem disparado nesse momento.

Há que desconfiar quando um livro se assume como "iniciático". Lá vem aquele dito saber esotérico, assumidamente obscuro e carregado de significados perceptíveis apenas pelos iniciados. Frases em que uma só palavra pode significar livros inteiros (geralmente mal escritos, onde reina a ilógica e associação de ideias). Há quem consiga fazer isso bem, transformando a tradição esotérica em boas histórias. António de Macedo é talvez o escritor cuja obra melhor representa esta ligação. Não é, de todo, o caso deste Infante de Portugal, livro de vinhetas escritas em prosa gongórica que é completamente incompreensível. Eu sei, têm razão, a coisa é "iniciática", só os iniciados é que têm capacidade de compreender a profundeza de significados que escapam aos meros mortais ignorantes. A falha de compreensão é minha, notoriamente.

Ou então isto é mesmo o que é. Um texto incompreensível, espelho de uma filosofia obscurantista sem qualquer base tangível. Uma história oca, escrita numa prosa filigranada de tanta elaboração, que ajuda à incompreensibilidade do texto. O único elemento interessante do livro são as ilustrações, de alguns dos mais conceituados desenhadores de banda desenhada portugueses. Suspeito que estes tenham baseado o seu trabalho em descrições do autor, porque ler este livro, é missão impossível. E de profundo masoquismo, sublinhe-se.

quarta-feira, 21 de março de 2018

aCalopsia: A Última Saga do Punho de Ferro

 
Quem é o Punho de Ferro? Será apenas um super-herói secundário, personagem de apoio às aventuras de Luke Cage, essencialmente resquício daquela moda dos anos 80 pelo Kung-Fu que também nos legou o agora adormecido Shang Chi, Mestre do KungFu? Ou será o herdeiro de uma tradição milenar, um guerreiro treinado e escolhido para defender a cidade mística onde foi treinado nos seus ciclos de guerra ritualizada. Crítica completa no aCalopsia: A Última Saga do Punho de Ferro, por Ed Brubaker, Matt Fraction e David Aja.

terça-feira, 20 de março de 2018

Crazy Equóides



João Barreiros (2018). Crazy Equóides. Lisboa: Imaginauta.

Conhecedores da obra de João Barreiros sabem à partida o que esperar dos seus textos. Nunca desilude, e dá aos seus leitores aquilo que estes esperam dele. Barreiros tem uma fórmula de escrita apurada, com temáticas afinadas e personagens-tipo invariavelmente metidas em situações de comédia negra. Notem que é uma fórmula, inerente a qualquer processo criativo, não quero com isto dizer que Barreiros seja formulaico. Há uma diferença qualitativa assinalável entre encontrar e estruturar uma voz artística e repetir elementos seguros até à exaustão.

A irreverência de Barreiros sempre me pareceu, por um lado, como extensão lógica da sua personalidade de enfant terrible. Aquela que se delicia em público, com aquele tom de voz e brilho nos olhos que lhe conhecemos, a chocar ou desconcertar interlocutores. Isso não chega para ser um escritor interessante, estatuto que atinge pela sua qualidade literária, ideias de base enciclopédica na FC e solidez dos mundos ficcionais que invoca. E, claro, uma fortíssima irreverência. Nos seus livros e contos, esta sente-se como reflexo de um trauma profundo. Sosseguem, não daquelas dores de umbigo psico-melodramáticas do mainstream.

Barreiros é um confesso admirador da FC clássica, dos foguetões de metal reluzente a espraiar o fardo do homem branco pelas galáxias, das visões utópicas dos futuros esquecidos dos anos 50 e 60.  A sua ficção tem o seu quê de reação ao choque destas visões inocentes com o futurismo galopante de desigualdades e as incoerências e pulsões pouco utópicas do espírito humano, que só os mais cândidos ainda acreditam ser fundamentalmente bom. Misturem isto com sarcasmo e capacidade inventiva, e têm a receita para o tipo de FC que pratica: negra na sua abordagem, instrumentalizando a visão da tecnologia para invocar paisagens de decrepitude induzida ou utopias colapsadas.

Este Crazy Equóides não escapa à fórmula, e ainda bem, que Barreiros tem-a bem afinada. Esta novela vai num sentido um pouco diferente. Foca-se na sexualidade, e vinda de quem vem, não esperem romantismos ardentes. Antes, temos uma civilização alienígena levemente centáurica com hábitos reprodutores peculiares, levados a um apocalipse provocado pelo desejo sexual induzido por um cuidadoso primeiro contacto com humanos. Um frenesim especialmente destrutivo. Temos Inteligências Artificiais gananciosas e amorais, humanos reduzidos à condição de serventes de IAs,  e duelos mortíferos com mísseis termobáricos. Reparem que o conto foi escrito como âncora para uma antologia de FC erótica, que nunca chegou a ser publicada. Apocalipse ao estilo de João Barreiros é sempre qualquer coisa de extraordinário no seu âmbito.

segunda-feira, 19 de março de 2018

Comics


Mister Miracle #07: Tom King, claramente o novo super-argumentista da DC. Os fãs estão muito curiosos  com a sua contribuição para a Action Comics #1000. A sua visão sobre o clássico personagem de Jack Kirby também está a ser aclamada por crítica e fãs. Há boas razões para isso. O estilo narrativo metódico do argumentista, a forma concisa, por vezes seca como conta histórias. E, especialmente, um olhar refrescante sobre as personagens, fugindo a abordagens histéricas (nisto, estou a pensar na diferença entre Batman sob Scott Snyder e a correte temporada de King). O intrigante neste Mister Miracle é o contraste entre a banalidade da vida normal que Scott Free e Barda procuram com o lado épico inerente a serem personagem do Quarto Mundo.


The One #02: O quê, mais uma interpretação irónica da mitografia dos super-heróis? Ah, bocejos de tédio. Ou talvez não, sabendo que este vem da mente perversa de Rick Veitch, que está a abordar o tema com um tom de caricatura grotesca.