segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Comics


Days of Hate #01: Ales Kot é um argumentista que não foge de temas pesados, e está aqui bem acompanhado pelo grafismo de Danijel Zezelj. O tema é bastante óbvio, e reduz ao absurdo as inacreditáveis pulsões de racismo, autoritarismo, proto-fascismo e guerra cultural que nos chegam do momento contemporâneo nos Estados Unidos. Se o inacreditável já aconteceu, com a eleição de um milionário incompetente que consegue encarnar algumas das piores emoções humanas, até onde poderá ir a decadência rápida desta sociedade?
Danijel Zezelj


Ice Cream Man #01: Começa com aranhas, mas promete mais. Fugindo ao conceito de série, esta nova edição da Image promete reciclar o conceito de comic antológico, em que cada edição traz uma nova história, sem continuidade com as anteriores, embora mantenha um fio condutor. No entanto, gá que notar que o caráter luminoso do traço do ilustrador Martin Morazzo não consegue criar aquela sensação de terror que se espera de um comic destes.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Deadpool: Os Erros Pagam-se Caro

 
Gerry Duggan (et al) (2018). Deadpool: Os Erros Pagam-se Caro (Marvel Coleção Especial, #4). Lisboa: Goody.

Segunda leitura que faço de coisas destas personagem, e continuo sem perceber a sua atração e popularidade. Apesar de, em abono da verdade, esta edição da Goody incluir um conjunto de pequenas histórias sobre personagens secundárias do universo Deadpool que estão bem concebidas. Diria mesmo que o problema que tenho com Deadpool está mesmo aí, as suas histórias não são verdadeiras narrativas, são sucessões de piadas e punchlines com poses à mistura. O personagem é suposto ter piada, e a justaposição de humor negro com violência até funciona, o que falha é que os seus comics não passam disso. De certa forma, Deadpool representa um regredir da narrativa em comics até aos tempos dos argumentos simplistas da golden age, uma fuga à complexidade que se iniciou nos anos 70.

Por outro lado, não sou o público-alvo desta série, mas não é isso que me incomoda. É o foco excessivo na piada, esquecendo todos os restantes elementos narrativos. Uma característica que pode ter popularidade a curto prazo, mas dificilmente vejo este personagem a sobreviver ao inevitável esgotar da boa vontade dos fãs. Esta edição da Goody tem outro pormenor preocupante: a editora fez crer aos leitores que a sua série Marvel Coleção Especial seria composta por arcos narrativos fechados, o que torna algo surpreendente as histórias principais terminarem com um "continua num próximo volume da série". Defrauda as expectativas sobre esta coleção. Não faria mais sentido criar um título só para este personagem?

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

O Algoritmo do Poder

 

Pedro Barrento (2018). O Algoritmo do Poder. Edição de autor.

Parti para O Algoritmo do Poder sem fasquias elevadas. Auto-edição significa que tirando os amigos do autor não houve olhar crítico editorial sobre o texto, e as produções literárias de autores que estão fora dos núcleos mais activos da FC em Portugal raramente surpreendem pela sua qualidade ou inventividade. Isto não é um elogio a grupos, antes um apontar que criadores que se cruzam e discutem o seu trabalho conseguem levá-lo mais longe do que aqueles que estão isolados nos espaços. Seria este mais um daqueles livros bem intencionados, mal escritos e com ideias banais que fazem as delícias das editoras vanity predadoras?

No seu cerne, a ficção científica e especulativa não trata de prever ou imaginar futuros. A lente da FC não é um oráculo de Delfos, antes, é um espelho das pulsões sociais e culturais da sua contemporaneidade, alimentada pelo fascínio e possibilidades da ciência e tecnologia. Os futuros da FC são em essência uma redução ao absurdo dos momentos presentes, um tirar de travões aos contextos do tempo cultural e levá-los às suas conclusões lógicas. Este não é, claro, um raciocínio que caracterize toda a Ficção Científica, e ainda bem, senão não teríamos divertidas aventuras no espaço, cheias de raios laser, explosões e estrelas da morte. Divertidas, mas inconsequentes, que não nos surpreende e deixa a reflectir como faz o lado mais maduro do género. Podemos apreciá-lo pelas naves espaciais, mas o que verdadeiramente apaixona é o raciocínio sobre possibilidades que nos desperta.

Este tipo de especulação está no cerne de O Algoritmo do Poder. Apesar de estruturado como romance-périplo, um daqueles livros que pega nas mãos do leitor e o leva através do mundo ficcional (utilizando a definição de Aldiss em A Billion Year Spree), é em essência um longo infodump sobre a forma como Pedro Barrento vê algumas questões estruturais que já hoje caracterizam a sociedade global. Infodump, mas daqueles bem feitos, em que os dados que informam o leitor sobre as premissas do mundo ficcional são elementos da narrativa e não aqueles longos discursos onde um personagem perora longamente para nos ajudar a perceber as premissas do universo.

Se não estivermos particularmente sintonizados com questões como a influência dos algoritmos nos comportamentos sociais, bolhas de informação, inteligência artificial e automação, ecologia e alterações climáticas, pode ser fácil desconsiderar O Algoritmo do Poder como uma banal distopia. Um mundo futuro fragmentado, regredido, onde a globalização foi substituída por uma hiperlocalização, com a heterogeneidade social eliminada pela existência de regiões habitadas exclusivamente por quem partilha de ideais ou religiões específicas. Imaginem que os países não são ricos cadinhos culturais onde diferentes grupos se cruzam e interagem, mas regiões de monocultura social. Que a memória colectiva é limitada a uma espécie de constante agora, sem memória do passado nem vontade de projetar futuros. Que os níveis de vida e de tecnologia tinham de facto regredido, mas ninguém se importa com isso porque não imagina sequer que haja alternativas ao mundo onde sempre viveram. Pessoas que não imaginam sequer que o mundo seja mais vasto do que a pequena região que habitem, onde viajar é passar entre localidades próximas. Um estado de coisas facilitado por um governo global automatizado, baseado em algoritmos, que redistribui a riqueza por todos e assegura uma normalidade global. Um mundo que é de facto uma gaiola, não dourada, até bastante enferrujada, mas quem nela está encerrado julga-se no melhor dos mundos porque a memória colectiva é controlada pelos omnipresentes algoritmos.

Agora, olhem à vossa volta. A discussão pública está cada vez mais dependente de redes sociais onde nos agrupamos em bolhas de informação, verdadeiros enclaves de ideias que geram em cada um de nós a falsa sensação de um consenso global. Fluxos de informação controlados por algoritmos cada vez mais avançados, e que sem que nos apercebamos transvasam para as nossas vidas. Quantas das nossas decisões não foram influenciadas por algoritmos invisíveis? Não são entidades espirituais, são ferramentas industriais usadas em nome da eficácia dos serviços e da interconexão global de que todos dependemos. E se a nossa memória comum não foi riscadas e esquecida, até que ponto o estado de constante atemporalidade gerado pelos media e internet nos leva a esquecer a rica textura do fluxo histórico?

Certamente o maior desafio do nosso momento contemporâneo são as alterações climatéricas. É um problema tremendo, que coloca em risco o planeta e a nossa viabilidade como espécie a longo prazo, e o nosso estilo de vida a curto prazo. Debate-se muito, faz-se pouco, aposta-se na tecnologia que ainda está por inventar para nos salvar dos desastres ambientais. Mas, e se a resposta for regredir? Isolar as comunidades, esquecer a globalização, produzir localmente, encontrar formas de reduzir drasticamente a população? Este é outro dos alicerces de O Algoritmo do Poder, que Barrento explorou muito bem numa variante da metáfora que Elon Musk chama o problema da fábrica de clipes de papel. Imaginem uma inteligência artificial criada para optimizar a produção de clipes, que percebe que a conclusão lógica para uma produção de eficiência perfeita passa pelo extermínio da humanidade. Não é uma inteligência artificial criada para aniquilar, antes, a aniquilação é uma consequência dos seus processos lógicos. Sem querer entrar em muitos spoilers, Barrento usa esta lógica para algoritmos sociais que combatem a pressão demográfica através da eliminação selectiva daqueles que se tornam um fardo social, idosos ou doentes prolongados.

Estas minhas observações fazem parecer que O Algoritmo do Poder é um longo tratado filosófico. Pelo contrário, é uma história, e uma boa história, cuja estrutura me fez recordar o romance O Último Europeu de Miguel Real, com o qual também tem similaridades temáticas, especificamente ao nível da desestruturação do mundo como o conhecemos e erradicação da memória histórica coletiva. Uma história que se passa em dois tempos, mas essencialmente numa só cidade.

Estamos em Lisboa de um presente e futuro próximo, berço implausível de um movimento global que visa revolucionar a política, substituindo a democracia parlamentar por um governo automatizado, controlado por algoritmos e indivíduos interconectados em rede. Um movimento utópico, alicerçado na computação, que será cooptado por um homem arguto à beira da morte, e que irá acabar por dominar o globo, derrotando governos e a oligarquia um percentista com a inexorabilidade das redes digitais.

Estamos também na Lisboa de um futuro mais distante, uma cidade que já não tem o nome de sempre numa língua original que foi esquecida na homogeneização linguística trazida pela rede, irreconhecível numa região que sucedeu a um fragmento de Portugal (e se me permitirem o comentário, belíssima piada a que Pedro Barrento faz com a região a sul do rio Tejo). Uma cidade onde reside a única força que escapa à rede omnipresente, o legado também em si esquecido de uma das programadoras originais dos algoritmos que sustentam este pouco admirável novo mundo, que cedo se apercebeu do seu potencial distópico. Uma força que, graças ao ponto fraco desta sociedade futura, poderá ser a sucessora no domínio global, embora num recanto do globo os herdeiros da velha sociedade se preparem para o momento em que a rede global falhar.

É esse o ponto fraco de uma sociedade automatizada, que não evolui nem se renova. Com uma população dócil, dividida em grupos de interesse e com as sua necessidades cuidadas por um sistema automático que não tem ninguém que zele por ele. Onde o progresso científico parou e as conquistas da tecnologia são uma memória esquecida. Um colapso que se começa a gizar no final do romance, mas que Barrento não nos revela, recusando-se a continuar o livro a partir do ponto em o leitor monta por completo o puzzle do seu mundo ficcional.

O resto é história, são os dramas e aventuras de um grupo de personagens eclécticos cujas ações têm consequências à escala global. Confesso que não empatizei muito com os personagens, fiquei mais seduzido pelo espaço de ideias que sustenta o livro. Barrento tem uma técnica narrativa muito directa, encadeando bem a acção com a necessidade de explicar ao leitor o que a sustenta. A leitura é rápida, divertida, apesar de uma certa sensação de estranheza pela colisão da familiaridade dos locais da história com o ambiente de ficção científica do livro.

A olhar para um ecrã divido em várias janelas enquanto termino esta recensão, com um olho no editor de texto e outro no navegador onde vão passando as novidades que os algoritmos das redes sociais escolhem para o meu olhar, a partir do perfil da minha bolha de informação, percebo onde Pedro Barrento quis chegar com a sua distopia. Não podemos confiar cegamente em quem desenha os algoritmos. Nem correr o risco de perder a memória colectiva. Não leiam O Algoritmo do Poder como mais uma aventura distópica. Este livro é muito mais do que isso.

Fiquei surpreendido. Confesso que não tinha grandes expectativas para este livro. Uma auto-edição, de um autor que não está, tanto quanto sei, associado aos núcleos necessariamente amadores da ficção científica em Portugal que reúnem autores e fãs e têm funcionado como redes de apoio à melhoria do nível literário das novas vozes do género. Do autor, recordo vagamente uma fugaz e algo controversa passagem por um painel dedicado à auto-edição e promoção numa edição já longínqua do Fórum Fantástico. Fiquei ainda mais de pé atrás quando fui contactado por ele para fazer uma leitura ao livro, por me considerar um influenciador de opinião. O teu algoritmo precisa de ser afinado, respondi. O meu blog é um caderno de apontamentos, tal como as páginas do Goodreads, e estamos muito bem assim. Já tenho uma carreira que me valoriza o suficiente, não preciso nem quero entrar nos jogos de promoção de autores e editores para ganhar notoriedade. O meu blog é um espaço livre daqueles posts ctrl+c -> ctrl+v de promoção de editoras, as minhas leituras são as que me apetece fazer e não dependem de agendas editoriais. Tão pouco me interessa se tenho muitos ou poucos leitores, ou estar posicionado nos rankings.

Apesar desta proposta ter o seu quê de entrar no jogo de promoção de uma obra literária, aceitei. É tão grande a escassez, por cá, de produção literária neste género que me inspira e é tão querido que não deixo passar oportunidades de descobrir novas leituras. É uma vertente que explica algumas leituras bizarras e algo inesperadas de tentativas goradas de obras no domínio da FC YA que vou encontrando esquecidas nos fundos da prateleiras de livrarias, embora ainda não tenha decaído ao ponto baixo de ler livros da Chiado. No caso de O Algoritmo do Poder, valeu a pena a leitura.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Comics


Barbarella #02: Tendo em conta que a série está a ser desenvolvida para o mercado americano, não surpreende que Carey esteja a evitar a sexualização clássica da personagem. O caminho é outro, uma meditação sobre as consequências de sistemas políticos baseados no dogmatismo e ignorância alardeada. Tipo, se calhar, um trumpismo religioso?


X-Men Gold Annual #01: A Goody está a editar por cá no seu alinhamento de revistas estes títulos algo revivalistas do X-Men. Talvez cá chegue este anual, que revisita uma das super-equipas clássicas dos anos 90, os sempre bem humorados Excalibur. Se se recordam, esta foi a resposta de Chris Claremont às bizarrias de Alan Grant com Captain Britain, criando um grupo de heróis misturando X-Men icónicos com personagens da Marvel inglesa para viver aventuras onde imperava o bom humor. Este revivalismo segue-lhe as pisadas, com os nossos heróis a regressar a Inglaterra via voo comercial, porque o combustível para o Blackbird anda muito caro.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Cosmic Odyssey: The Deluxe Edition



Jim Starlin, Mike Mignola (2017). Cosmic Odyssey: The Deluxe Edition. Nova Iorque: DC Comics.

Uma aliança improvável para lutar contra uma ameaça tremenda. O malvado Darkseid, os novos deuses de Nova Genesis e um punhado de heróis terrestres alia-se para derrotar um mal absoluto. Nada menos que a encarnação da equação anti-vida, incapaz de sobreviver na nossa realidade, mas nem por isso incapaz de a destruir. Quatro dos seus emissários criam condições para destruir sistemas solares chave, cujo colapso iniciará uma reação em cadeia capaz de aniquilar a galáxia. Uma encarnação consciente de uma arma criada por uma civilização extinta, cuja xenofobia a condenou a um eterno estado de guerra. Argumento divertido de Jim Starlin, e ilustração explosiva de Mike Mignola.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

La chute de l'Empire humain



Charles-Edouard Bouée, François Roche  (20179. La chute de l'Empire humain : Mémoires d'un robot. Paris: Grasset.

A discussão sobre os impactos da inteligência artificial, robótica e automação geralmente termina numa de duas conclusões: ou as do caos nos sistemas sociais, com a redundância do ser humano numa economia automatizada, ou as utopias singularitárias que prometem libertação e transcendência dos limites humanos graças aos avanços tecnológicos. Dado o estado das coisas no início do século XXI, tempos de capitalismo terminal, neoliberalismo alastrante e desastre ambiental global em curso, o espaço de ideias inclina-se mais para as primeiras e mais distópicas opções.

Mas, e se houvesse uma terceira via? Não uma que nos libertasse das agruras e sonhos dos dois pólos clássicos destas discussões. Uma que os une, traçando uma sociedade futura progressivamente definida  pela IA, robótica e automação, conjugando a obsolescência de parte da humanidade, sem emprego possível numa economia automatizada, com a transcendência potenciada pela tecnologia dos limites humanos para aqueles com riqueza suficiente para pagar as tecnologias. Algo que em si já é uma perspetiva pouco animadora, tornada ainda mais distópica por uma característica que já se nota hoje nestes campos.

A inteligência artificial de que hoje já dispomos potentes exemplos distingue-se pelo poder de computação, pela capacidade de analisar enormes quantidades de dados com uma rapidez e eficácia impossíveis aos humanos. É essa a sua grande promessa, de com isso ser capaz de aumentar as capacidades humanas. No entanto, quando olhamos para lá do deslumbre para os sistemas saídos da IA Watson da IBM, com utilização em apoio a actos médicos, para as proezas das IAs específicas que analisam possibilidades e probabilidades concatenadas com sistemas de aprendizagem (IAs como a Alpha Go, que bate os campões deste jogo asiático, ou os algoritmos de redes neuronais de que a Google faz uso), notamos uma singular fraqueza. Ser capaz de analisar quantidades imensas de dados não é equivalente a gerar novos dados. Para isso, é precisa a intuição e conhecimento humanos, todas as nossas dimensões de inteligência que estão para lá do processamento de informação. Analisar dados, com a potência já disponível hoje nos produtos de inteligência artificial, é uma capacidade imensamente útil, capaz de auxiliar humanos na análise e diagnóstico de situações. Resta a questão da origem dos dados a analisar.

Uma ideia que é sublinhada quase na conclusão deste intrigante ensaio. Ao traçar cenários possíveis de evolução social sob impacto de IA, robótica e automação, Bouée faz notar que para além da quasi-religiosidade da transcendência singularitária e da potencial obsolescência de uma humanidade condenada ao desemprego, um futuro dominado por Inteligência Artificial seria eminentemente estável. O imprevisto e o desconhecido não são quantificáveis, e IAs evoluídas a partir de software analítico teriam uma tendência a estabilizar o conhecimento, não produzindo nada de novo, aconselhando os humanos com base em padrões estáveis. A singularidade aqui torna-se uma imensa estagnação do progresso.

Infelizmente, não é esta a conclusão deste longo ensaio. Nele, Bouée começa por nos levar aos primórdios da computação para nos guiar no desenvolvimento potencial da Inteligência artificial, focando-se nas tendências que hoje a caracterizam. IAs de apoio decisório, robótica industrial mas também pessoal e afetiva, automatização da economia, controle de sistemas sociais com base em algoritmos. São elementos que já hoje se fazem sentir. Projectando um futuro próximo, segue o óbvio caminho da aquisição de consciência por parte do software, enquanto sublinha o potencial estagnador da IA. Querendo terminar numa nota optimista, imagina que as instituições políticas e sociais do futuro serão capazes de reagir e travar este progresso, visto como perigoso para a sobrevivência da espécie humana.

Talvez os robots no futuro olhem com nostalgia para memórias de uma humanidade que os criou e eventualmente se extinguiu, como consequência desse acto de criação. Ou talvez nos mesclemos com as máquinas, transcendendo os nossos limites. Talvez nos estejamos a condenar a um futuro de capitalismo automatizado, sustentando com largueza uma minoria de elites, com o resto da humanidade condenada à pobreza, inatividade e obsolescência. Ou talvez o planeta entre em colapso ambiental antes de termos tido tempo para chegar a este ponto de desenvolvimento, quebrando os sistemas complexos de que depende a nossa sociedade global. O melhor deste tipo de livros está em mostrar-nos que o futuro próximo está cheio de desafios, que a evolução tecnológica acelerada irá mudar radicalmente as nossas noções de sociedade, algo para que temos não só de estar preparados para enfrentar mas também, fundamentalmente, modelar. Apesar do título a roçar a distopia e de um final mais cor-de-rosa do que merecia, este ensaio distingue-se pela sobriedade com que traça o passado, presente e prováveis futuros do desenvolvimento da Inteligência Artificial.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Comics


Batman #38: A temporada de Tom King como argumentista de Batman tem sido impecável. Tem sido excelente em todas as edições, e de uma forma tranquila conseguiu imprimir um novo rumo à personagem, com o arco do casamento com Catwoman. Também de forma tranquila, revisita e desmonta alguns dos mitos fundadores do universo ficcional de Batman. Como a clássica história da sua origem, ponto obrigatório para todos os argumentistas. O interessante é que King não se mete pelos caminhos habituais de voltar a contar a origem de Batman, com alguma variante pessoal. Segue um outro caminho, o da psicose pura, com uma história sobre um jovem milionário de que Bruce Wayne é amigo, com um mordomo fiel, cujos pais são violentamente assassinados. Quase parece um novo Batman, mas este jovem traumatizado decide tornar-se assassino em série. Como bónus, o estilo visual desta história é uma homenagem aos tempos da série com Dennis O'Neill e Neal Adams, cujo traço inspira o do ilustrador desta nova aventura da personagem.


Dastardly & Muttley #05: E isto, caros, é Garth Ennis a divertir-se colidindo iconografias da cultura pop. Ando a vasculhar as minhas memórias de infância, mas não me lembro de Os Malucos das Máquinas Voadoras ser assim tão bizarro.

sábado, 6 de janeiro de 2018

Perdido nos Museus






Tate Britain, British Museum e National Gallery. Em rota de colisão com os rebanhos de praticantes de selfie com o quadro famoso em série.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Persepolis Rising


James S. A. Corey (2017). Persepolis Rising. Nova Iorque: Orbit.


No final de Babylon's Ashes, o universo de The Expanse parecia em risco de colapso. Com a Terra devastada por ataques com asteróides, as facções de Belters em guerra entre si e a aperceberem-se do tremendo risco de colapso económico, com a única fonte de materiais biológicos do sistema solar em risco de extinção, uma aliança militar entre marcianos e terrestres para dar caça aos rebeldes. Lá longe, muito longe, para lá do portal alimentado pelas estranhas tecnologias da civilização desaparecida que o criou, que nas fímbrias do sistema dá acesso a outros sistemas solares, cada qual com os seus mistérios, um grupo de colonos parece estar a criar uma civilização emergente.

Esperávamos em Persepolis Rising a continuação desta história, talvez uma aventura difícil por entre o ambiente de recuperação em tempos muito difíceis. Mas os autores trocam-nos as voltas, seguindo um outro caminho que não é de si inesperado, focando-se nas acções e ambições dos colonos que, no sistema solar de Laconia, estão a criar uma civilização emergente. Pistas que os Corey nos tinham deixado ao longo dos últimos volumes da série, com os habitantes de Laconia (rebeldes marcianos que roubam um terço da frota militar planetária) a formar importantes narrativas secundárias. O que é inesperada é a deslocação temporal. Entre Babylon's Ashes e Persepolis Rising passam-se trinta anos.
Isto significa que o Rocinante já não é a nave novinha em folha, ex-cruzador marciano apropriado pelo intrépido capitão Holden e sua divertida tripulação. A poderosa nave começa a dar sinais da sua idade. Também os aventureiros já não caminham para novos, a meia idade começa a fazer-se sentir, os cabelos a esbranquiçar. Pelo menos, somos poupados aos minuciosos dramas e politiquices da evolução da sociedade de The Expanse, a fórmula que os Corey sempre exploraram nesta série. Passaram-se trinta anos e as sociedades estabilizaram, a Terra recuperou do desastre ecológico, Marte mantém o seu poder, a sociedade Belter organizou-se numa união que controla a zona de transporte entre sistemas solares, e a sociedade terrestre espalhou-se por entre os mil e trezentos planetas acessíveis a partir do portal.

A princípio, parecemos ir mergulhar em mais uma história-périplo, com o Rocinante a ser enviado a um planeta colonizado por libertários em missão punitiva e Holden, como sempre, a fazer as coisas à sua maneira. Levamos o primeiro baque quando este anuncia que está cansado, quer retirar-se da vida de aventuras, e entrega o comando da nave à ex-marine marciana Bobbie. Como leitores, ficamos intrigados sobre como será a série Expanse sem o seu personagem principal e ponto de charneira. Poderemos esperar uma história com a tripulação do Roci a adaptar-se a uma nova vida, com Holden e Naomi a viver uma tranquila reforma longe de aventuras?

Os Laconianos são as grandes personagens deste livro. Ficamos a saber que, em isolamento voluntário do sistema solar e colónias, desenvolveram uma sociedade militarista e ambiciosa. Sem limites éticos, exploram ao máximo os potenciais das tecnologias alienígenas e da protomolécula. Winston Duarte, o ex-almirante marciano que fundou a sociedade laconiana, está a injectar-se regularmente com um soro destilado a partir do sangue de vítimas da protomolécula. Aos que são considerados criminosos na espartana sociedade laconiana, espera-os um destino atroz nos laboratórios de pesquisa, onde são infetados com a molécula para morrer e, no processo, servirem de colheita de dados e fluídos. Controlando a interacção da molécula alienígena com o corpo humano, Duarte almeja tornar-se imortal, líder único do que pretende ser um império humano que abranja todos os sistemas estelares de The Expanse. Depois de consolidar o seu poder e fazer avançar as suas armas, com incorporação de muita possibilidade tecnológica exótica trazida pela protomolécula, resta-lhe dar o primeiro passo de conquista.

Bastam duas naves. As modificações e tecnologia exótica dos laconianos estão demasiado à frente de tudo o que o sistema solar tem. Com muito pouco esforço, ocupam Medina, a antiga nave geracional Nauvoo, agora estação que orbita o portal entre sistemas solares. Uma das naves segue em direção ao centro nevrálgico do sistema solar, derrotando todos os esforços para a travar. O poderio combinado das potentes frotas terrestre, marciana e da união é incapaz de fazer frente a uma única nave laconiana. A derrota é previsível, a capitulação torna-se a única forma de salvar vidas. Apesar de militaristas e assentes em poderoso armamento, os Laconianos tentam projetar uma aparência de benevolência, mostrando que a invasão é apenas uma forma desagradável de criar uma inevitável e desejável união de toda a humanidade. A situação é desesperada, agravada pela violência da ocupação de Medina. Aos antigos belters, junta-se a tripulação encalhada do Roci. A resistência é inevitável, Holden e o seu bando de aventureiros honrados tem, mais uma vez, um papel decisivo a travar. Para complicar um pouco mais a narrativa, o uso extensivo de tecnologias baseadas na protomolécula atraiu uma atenção indesejada. Algures no passado, a civilização que criou a protomolécula foi extinta por algo ainda mais avançado. Algo que Holden intui quando visitou pela primeira vez o artefacto que se tornaria o ponto de contacto entre mundos, e que volta agora a surgir. Mais do que o risco do universo de The Expanse se tornar uma hegemonia ditatorial militarista, haverá algo ainda mais terrível a caminho.

Como sempre, esta série é escrita comercial no seu melhor. Não perde tempo com grandes especulações sociais, assenta num mundo ficcional muito sólido e plausível, e o encadeamento narrativo é daqueles que não nos deixa parar a leitura. O virar de páginas é compulsivo, queremos sempre saber o que está mais à frente, que aventuras ou desventuras esperam os nossos personagens. É este o grande ponto de interesse de The Expanse. Apesar de muito bem feito, não pretende ser mais do que é, ficção científica de puro escapismo.


terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Titus - O herdeiro de Gormenghast



Mervyn Peake (2010).  Titus - O herdeiro de Gormenghast. Porto Salvo: Saída de Emergência.

Há um tremendo ar de grandiloquência barroca neste clássico de Mervyn Peake. O texto é excessivamente trabalhado, filigranado, caricatural a roçar o grotesco. É um ambiente pesado, profundamente gótico no sentido sturm und drang. As personagens são caricaturais, arranstando-se em acção teatralizada por palco decadente, vasto e semi-arruinado. Isto não é fantasia no sentido clássico, de visões bucólicas e feitos heróicos. E é isso que torna este livro interessante.

Este primeiro livro da série Gormenghast (vá, pronunciem a palavra, saboreiem a sua arquitectura gutural, e percebem o barroquismo decadente do livro) é em essência um longo apresentar de personagens, dispondo-as num convoluto tabuleiro de xadrez narrativo. Ficamos a conhecer a incrivelmente disfuncional família senhorial do condado de Gormenghast, com o seu conde moroso, esposa que se interessa unicamente pelos seus gatos, filha semi-selvagem e irmãs gémeas com óbvia deficiência mental. Somos apresentados à caricata entourage de altos funcionários que de se dedicarem a funções fortemente ritualizadas, tornaram-se eles próprios ritualizados. Isto num castelo vasto, entre o sombrio e o assombroso, centro de uma terra que em si também encerra esquisitices quanto baste.

A história, contada com uma lentidão agonizante, narra-nos os primeiros anos de Titus, o filho varão do conde e grande esperança do reino. Um herói que nada faz, é um personagem secundário na sua própria história. O grande personagem é Steerpike, um inteligente e ambicioso anti-herói, jovem que consegue encontrar forma de se erguer de mero escravo de cozinha até se posicionar para se tornar o de facto dono do poder em Gormenghast. Sinuoso e implacável, capaz de manipular com fina inteligência aqueles que o rodeiam, um líder apropriado para a decadência ritual do condado.

A lentidão narrativa é em si outro artifício literário. Sublinha o filigranado barroco do texto, o caricatural das personagens e o teatral das peripécias da narrativa.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Um café com Dylan Dog


Se se é um fã do detective dos pesadelos, esta é uma paragem obrigatória em Londres. Não pela comida, embora aí possa ter tido algum azar, por ter lá ido nos dias da pausa de natal, com o espaço a meio gás. O Cafe Dylan Dog fica pertíssimo da estação de Paddington, logo no início da Craven Road. Precisamente no número 7, que no mundo ficcional de Dylan Dog é a localização da sua casa londrina, lar de Dylan, Groucho, da campainha que urra, do clarinete e do modelo de veleiro que Dylan nunca mais acaba de montar. Na vida real, a rua e a localização existem, e tal como o número 221B de Baker Street, tem um local alusivo ao mundo ficcional.


Numa manhã gelada londrina, daquelas em que a chuva se transforma em revoadas de neve antes de derreter no solo, aproveitei para um pequeno almoço com o Old Boy. Não foi dos melhores english breakfast que comi, mas para um fã de Dylan Dog, é uma experiência incontornável (e sensivelmente mais barata do que Baker Street para fãs de Sherlock Holmes). O espaço é o de um café normal, com ilustrações alusivas a Dylan Dog nas paredes. A que está no mural é mesmo a melhor, as em quadros parecem má fan art.


Atrás da minha mesa, dois agentes da Metropolitan Police tomavam o seu também britânico pequeno almoço. Um, curioso, perguntou ao empregado de balcão quem era este tal de Dylan Dog. Para surpresa minha, este não foi capaz de lhe responder quem é este personagem de fumetti. It's a comic book character, a detective. Like Sherlock?, pergunta um dos agentes. Podia ter intervido, mas achei que os iria assustar. Terminei o pequeno almoço e saí para o frio, em direcção a Baker Street e a outra homenagem geek, esta bem mais mainstream do que a primeira da manhã.

Só me faltou estar ler um exemplar de Dylan Dog enquanto tomava um café. Fica para a próxima.

sábado, 30 de dezembro de 2017

In the rain













I like London... in the rain...

aCalopsia: Nonnonba

 
Shigeru Mizuki (2017). Nonnonba. Palmela: Devir.

A última crítica de 2017 para o aCalopsia, sobre um livro que foi das melhores surpresas do ano..

A mitologia tradicional em vias de esquecimento num Japão em pleno processo de modernização é revisitada pelo olhar deslumbrado de uma criança, que sente uma enorme curiosidade pelas criaturas fantásticas das histórias de uma velha ama. Em Nonnonba, tradições ancestrais e recordações de infância cruzam-se numa história cativante, que dá a conhecer ao público português um dos grandes marcos da obra de Shigeru Mizuki. Edição da Devir, reforçando com a sua aposta na coleção Tsuru a vontade de trazer aos leitores portugueses autores e obras marcantes do mangá. Crítica completa no aCalopsia: Nonnonba.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Where Wizards Stay Up Late



Katie Hafner, Mathew Lyon (1998). Where Wizards Stay Up Late: The Origins of the Internet. Nova Iorque: Simon & Schuster.

Uma intrigante visão dos primórdios da internet, contada em ritmo jornalístico. Foca-se pouco nos detalhes técnicos, preferindo olhar para o trabalho desenvolvido pelas personalidades que marcaram o desenvolvimento da internet. Começa na ARPA, mostrando com a visão de computação interconectada levou o seu primeiro impulso lá, desmontando o mito de ser um método de comunicação pensado para sobreviver a uma guerra nuclear. A visão que veio dar origem à internet foi, desde o princípio, de interconectar instituições e cientistas. São contados os primeiros passos da rede, desde as propostas de Licklider na ARPA aos primeiros nós criados e programados a partir de computadores Honeywell pelos engenheiros da Bolt Beranek Newman, os Interface Message Processors, que implementaram as redes de packet switching e, pela primeira vez, interligaram computadores em diferentes localizações geográficas, criando a primeira rede informática.

O resto é uma história de crescimento exponencial, que desmonta outros mitos de criação da internet. Desde o início que a cooperação internacional marcou a nascente internet, com o trabalho do inglês Paul Davies na universidade de Londres e o projeto francês Cyclades, outros pioneiros das redes de computador, a integrar as propostas técnicas que fizeram evoluir a internet. Detalha também a consolidação de diferentes propostas técnicas no uso do TCP-IP e ethernet, mostrando como o espírito de propor, testar e construir esteve presente na rede desde os seus primórdios, sublinhado especialmente no triunfo do TCP-IP sobre a imposição da norma OSI, imposta pela ISO. A evolução orgânica, aberta à multiplicidade de propostas e discussão de ideias, está presente na rede desde os primeirissimos tempos da Arpanet.

Há detalhes muito curiosos, como a descrição da primeira grande demonstração pública da ARPANET num congresso de telecomunicações e computação, que fascinou os seus participantes por, por exemplo, poderem conversar uns com os outros em janelas de terminais de computador; a imposição do email como aplicação que fez verdadeiramente vingar a internet, pensada mais como forma de interligar sistemas em interfaces mais formais, mas foi o poder da comunicação informal que a fez vingar. De tal forma que já nos anos 70 se colocavam problemas como excesso de emails.

O livro termina com o desligar da ARPANET e sua incorporação nas míriades de redes que lhe sucederam, numa interligação progressiva que gerou a internet que conhecemos hoje. Uma rede cujos potenciais e impactos sociais não passaram despercebidos desde os seus primórdios por aqueles que a construíram. Mais do que ligar computadores, pretendiam ligar comunidades de cientistas.

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

L'Ombre de Wewelsburg



Richard Nolane, Maza (2017). Wunderwaffen T11: L'Ombre de Wewelsburg. Toloun: Soleil.

Estará esta intrigante ucronia a chegar ao fim? A arma do misterioso alienígena encontrado sob os gelos da antártida, que poderá atacar no espaço e no tempo, ao ser usada pela primeira vez irá recuar ao passado e travar o desembarque aliado na normadia. Ou talvez não, o futuro está em aberto nesta série intrigante. Série que vive essencialmente da especulação sobre as armas futuristas que na nossa realidade nunca passaram de planos ou conceitos, mas no mundo de Wunderwaffen animam as vinhetas com tecnologias impossíveis recriadas pelo traço rigoroso de Maza.

sábado, 23 de dezembro de 2017

aCalopsia: Mensur


Rafael Coutinho (2017). Mensur. Lisboa: Polvo.

Entre o estoicismo da honra absoluta e um grafismo explosivo, Mensur é a mais recente edição portuguesa do autor brasileiro Rafael Coutinho. Proposta de banda desenhada brasileira da Polvo, Mensur traz ao público português o surpreendente trabalho gráfico e narrativo de Rafael Coutinho. Nesta história sobre o absolutismo da honra, o grafismo explode a cada página. Crítica completa no aCalopsia: Mensur, de Rafael Coutinho.

Azul





Nesta luz fria de inverno. Óbidos e Torres Vedras.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Electronic Superhighway








Uma exposição que reúne projetos de despertar a reflexão no domínio da arte digital. Desde trabalhos de desenho criado por algoritmos a reflexões sobre a sociedade panopticon e o impacto das redes na sociedade e indivíduos.